Entrevista: Paloma Franca Amorim

Por: Leia Mulheres | Em: 4 / julho / 2018

Este texto trouxe uma reflexão sobre as escritoras do Pará. Para complementá-lo, conversamos com a escritora Paloma Franca Amorim. O resultado você confere abaixo. 

Quais as tuas motivações para produzir? O que te impulsiona a escrever?

Acho que desde sempre uma persistente curiosidade sobre a linguagem literária e oral, ou todas as linguagens, a maneira como as vivências são mediadas entre si, esse dispositivo da própria vida que faz com que possamos nos expressar e, em medidas sensíveis, técnicas ou fáticas, nos relacionar. Sempre que penso isso acho bonito, que tudo tem linguagem para além dos armazenamentos previsíveis da vida enquanto forma biológica, natural. Desde sempre eu quis saber o que havia por debaixo do tapete do natural, da biologia, o que fazia a minha existência ser diferente da tua e da de outras pessoas. Claro que eu não organizava as ideias como estou fazendo agora, mas esse início de inquietação sempre houve. Eu sempre quis, mesmo desde antes de ser alfabetizada, para além de entender as palavras, saber mexer com elas, saber lidar com sua condição volátil nunca com o atrevimento desrespeitoso e civilizatório de uma domadora, mas como uma amiga, uma companheira.

Como se dá o processo de escrita para você? De que forma sua condição humana influencia no que você escreve?

Eu percebi recentemente que há um método na minha escrita associado à audição, à escuta. Notei há pouco tempo porque antes achava que eu era mais visual – porque trabalho também com imagens, com desenho, com pintura – mas eu sou muito ouvinte, na verdade. Tenho um caderno onde vou anotando ideias que me ocorrem e percebi que com frequência elas surgem de conversas que eu ouço ou participo, pedaços de canções, sonoridades, ruídos, silêncios. Isso é interessante porque escrevo há tantos anos e pensava que conhecia já com muito domínio minhas maneiras de produzir, mas não conheço, tem sempre alguma novidade que se revela e instiga ainda mais esse processo de fazer e mapear o próprio fazer.

Tua vivência nortista influencia teu trabalho como escritora? De que formas essas vivências interferem em seu trabalho?

Sim, demais. Tanto no sentido da criação, da aprontação estética, como num sentido externo – que não cabe a mim – que é o do mercado. Autores nortistas são pouquíssimo lidos no sudeste, essa lógica precisa ser questionada. Jamais perdemos o epíteto de “amazônidas”, não somos considerados escritores que representam uma perspectiva de literatura brasileira sem a clivagem étnica/regional. Claro que eu não me furto de falar a todo instante que sou amazônida, posto que isso é uma forma de reação política à hegemonia do sudeste em nossas vidas e história, também em minha escrita há de alguma maneira um discurso amazônico que se revela pelas entrelinhas, o ritmo linguístico, as pausas, e – é claro – em alguns dos temas, isso não quer dizer que eu esteja permitindo que o mercado editorial me encaixe em uma prateleira de lugar de fala: autora afroindígena da Amazônia. Não. Eu sou uma autora brasileira que carrega no próprio corpo a contingência de ter nascido na Amazônia, em Belém do Pará, mulher, miscigenada, filha de uma mulher negra e de um homem caboclo. Essas condições me definem politicamente como parte de diversos setores minorizados pelas elites, mas não deveriam ser manipuladas para me codificar na dimensão do mercado literário. Aliás, acho que o mercado literário se valeu do conceito de lugar de fala para nos deixar bem quietos em prateleiras específicas e restritivas. Lugar de fala virou cilada depois que mercantilizaram o conceito. As elites não são amadoras.

Existem algumas mulheres que escrevem, mas é o público que as intitula escritoras, então passam se a ver como uma, em outros casos já existe uma autoidentificação, o que tu pensas sobre isso?

Acho que as pessoas que escrevem, se sentirem à vontade, devem falar que escrevem. Se desejarem, devem publicar seus textos nas plataformas possíveis, compartilhar com leitores diversos, amigos, professores. Eu fiz isso desde sempre, escrevia histórias e mostrava pra minha amiga Rebecca, ela foi a primeira pessoa que disse que o que eu escrevia fazia alguma coisa com ela. Nós tínhamos treze anos. Eu prestei atenção nisso pra entender onde no meu texto estava a coisa que fazia aquela coisa com ela. Tudo sem nome, sem definição precisa. A gente pode chamar isso de enleio estético, catarse, fruição desinteressada, pode teorizar, mas a interação com a Rebecca como leitora era real e crítica porque se dava presencialmente, e a gente discutia meus textos com prazer, rindo. Então daí se formatou essa – digamos – autorização para que eu me pensasse escritora: eu era escritora porque tinha uma leitora. Mas só mais tarde, com quase trinta anos, fui começar a me chamar publicamente de escritora. E penso que sendo mulher e nortista, se eu não tivesse feito isso, ninguém faria.

Tu achas que o mercado editorial de livros traz as mesmas oportunidades para escritores e escritoras? Qual é a tua opinião sobre essa questão em termos nacionais e regionais?

Não tenho dúvidas de que existe ainda um degrau do tamanho de um abismo separando homens e mulheres num circuito de visibilidade literária. Também um degrau separando autores brancos de autores negros, autores do sudeste/sul de autorias do norte/nordeste. Acho que esse contexto só revela como há uma porção de interesses totalmente dissociados da estética literária que regem o mercado editorial. A chave-mestra, antes de tudo, é o retorno financeiro que as grandes editoras vão ter com esse ou com aquele autor e, de fato, há editoras menores que perseguem outras motivações para a publicação… O problema é que não existe paridade no mercado para que todas essas editoras possam constituir um panorama diverso de oferta para o público leitor. E quando falo de mercado eu me remeto a todo o esquema instituído hoje na divulgação de autores de literatura brasileira e latino-americana: livrarias, espaços culturais, feiras literárias. A referência ainda são as grandes editoras e os grandes editados que, não raro, são pessoas do sudeste, em sua maioria homens – aí podemos entrar no debate de cisgeneridade e orientação sexual heteronormativa também, porque também são marcadores que se estabelecem como predominantes no perfil dos autores.

Vou me usar como um exemplo sociológico, tá? Não quero que soe como apologia liberal lacradora ou de martírio:

Já eu, olha pra mim, índia velha (minha mãe me chamava assim) do norte, amazônida, lésbica. É quase como se minha presença no mercado fosse uma metonímia do apagamento sistemático que se instaurou como normalidade para todo um grupo social de autores e autoras nortistas/nordestinos.

Qual a tua opinião em relação a problemática de não termos escritoras mulheres negras e indígenas nas principais programações da maior feira de livros do nosso estado?

Acho grave, uma demonstração explícita da estupidez de nossas elites culturais. Quero distância dessa gente e das feiras de livro subsidiadas pelo governo do estado do Pará.

Há um projeto bem bacana em Belém chamado Roda de Escritoras Paraenses através do qual a poeta Carol Magno fez um levantamento impressionante de autoras da capital e dos interiores, centrais e periféricas, pretas africanas, indígenas, caboclas e brancas, que foi sumariamente ignorado pelos intelectuais que articulam os eventos literários no Pará. Da censura que vivi em O Liberal eu já nem preciso mais falar, foi a manifestação em nível obsceno da ignorância e do fascismo das nossas elites. A ausência de autorias negras diversas e da própria região amazônica é racismo e machismo puros e escancarados.

Em literatura, quais as leituras que tu indicarias? O que andas lendo?

Comprei recentemente os dois livros traduzidos pelo Davi Diniz da Alejandra Pizarnick, poeta argentina. É um projeto da editora Relicário, são dois livros bem bonitos, “Os trabalhos e as noites” e “Árvore de Diana”. Aí também tô lendo esses tempos, aos pouquinhos, o livro mais recente da poeta Carla Diacov, “Amanhã alguém morre no samba”, da Edições Macondo. Tô no “Machado” também, do Silviano Santiago, muito bom, romance editado pela Companhia das Letras. Terminei (mas não terminei, porque não dá pra terminar esse livro) a antologia de poemas do Ricardo Aleixo, “Pesado demais para a ventania”, editado pela Todavia. Indico todos esses.

Como as pessoas podem ter acesso ao teu trabalho? (site, onde vende o livro… etc)

Podem curtir minha página de trabalho no facebook: facebook.com.br/palomafrancaamorim, e para comprar o livro o endereço é: http://www.alamedaeditorial.com.br/literatura/pre-venda-eu-preferia-ter-perdido-um-olho, ou na loja física da editora Alameda que fica na Treze Maio, 353, Bela Vista, São Paulo. Em Belém, meu livro tá na FOX, em Salvador ele pode ser encontrado na Boto Cor de Rosa – Livros, Arte e Café (http://www.livrariabotocorderosa.com).

Por fim, se pudesses dar um conselho a todas as escritoras da nossa região norte que ainda não conseguiram publicar seus textos ou serem reconhecidas como escritoras, qual seria?

Que não parem de escrever, hoje há plataformas mais democráticas de publicação e compartilhamento, as redes sociais, os grupos de discussão literária etc. Nós nos reconheceremos.

Leia Mulheres

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