Entrevista: Jarid Arraes

Por: Leia Mulheres | Em: 31 / julho / 2018

Na Flip deste ano a escritora Jarid Arraes lançou seu novo livro, Um buraco com meu nome. Conversamos com ela para saber um pouco mais sobre seu processo de escrita e algumas novidades do selo Ferina. Confiram.

Quando você começou a escrever?

Eu comecei a escrever quando descobri a poesia, mais ou menos com 13 anos. Lembro de um dia em que estava na garupa da moto do meu pai e ele declamou para mim “no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho” e “apedreja essa mão vil que te afaga, escarra nessa boca que te beija” e eu fiquei completamente maravilhada. Desde aquele dia, a poesia passou a ser uma paixão diária. E então eu comecei a escrever poesia. Primeiro tentando copiar a escrita dos poetas que eu conhecia – todos homens, é claro. Alguns anos depois conheci mulheres escritoras, mas só adulta conheci escritoras negras e também pude encontrar a minha própria voz literária, meu próprio jeito de escrever poesia.

Qual a sua rotina para a escrita?

Eu não tenho uma rotina para escrever, não sou boa com rotinas. Me dá uma angústia tremenda. Quando preciso cumprir prazos, cumpro. Mas escrevo quando consigo, quando dá, quando quero. Geralmente escrevo pelo impulso. Falo muito de insight, sabe? Quando a gente vai juntando referências, imagens, inspirações. Até que, “de repente”, vem uma frase, vem uma ideia. Mas não é de repente, é um processo que faz todo o sentido.

Eu me permito e respeito meus ciclos, embora seja uma escritora que escreve muito. Tenho meus cadernos, depois passo para o computador. Depende mais do estilo que estou escrevendo. Com a prosa, sou mais disciplinada. Me obrigo a sentar e escrever, porque sei que é necessário. Com a poesia, escrevo um pouco aqui, um pouco ali. Tem dia que vem um monte de poemas. Com o cordel – que também é poesia, só uma linguagem diferente dela – eu sento e escrevo tudo de uma vez. Gosto de ser assim.

Nos seus primeiros trabalhos, você conta sobre mulheres negras esquecidas pela história. Agora, você lança seu primeiro livro de poesias. Como foi o processo de transição de gêneros literários?

O mais difícil dessa transição não foi a forma, sabe? Não foi a linguagem, a técnica, mas lidar com a preocupação a respeito das expectativas. Porque meus leitores me conhecem por um tipo de literatura bastante específico, por um nicho que é aquele, que fala daqueles temas de uma forma tal, seja pelo cordel, seja pela pegada afrobrasileira que é muito evidente. Os meus outros livros e os meus cordéis são muito prontos para a escola, são para todas as idades. Com o Um buraco com meu nome, eu faço tudo de forma diferente. Ainda são poemas políticos, ainda falo de racismo, de machismo, mas entram novos elementos: a saúde mental, o abuso infantil, a técnica é outra, a linguagem é outra, as figuras são outras. As ilustrações não são mais leves e coloridas, mas pesadas e feias. É um livro adulto, pesado, que requer um ouro humor.

Eu sempre escrevi poesia, o Um buraco com meu nome não é novidade pra mim. É novidade pra quem me acompanha e nunca leu um poema meu. Algumas pessoas já leram e aí, talvez, não seja tanta surpresa. Então acho que esse processo é o que me dá uma expectativa maior, uma ansiedade maior. Mas quero falar desses assuntos de outras formas também. Acho importante, necessário e sincero.

Você pode nos contar um pouco sobre Um buraco com meu nome? Qual o significado por trás desse título?

 Muita gente acha que Um buraco com meu nome é uma cova, um túmulo. Bom, pode ser, se você quiser. Mas, pra mim, é muito mais um lugar de abrigo. Uma toca. Um lugar de descanso. Como se você viesse todo ferrado, descangalhado, e toda a sua força desse só pra entrar ali. Todo mundo precisa de um buraco com seu nome. Muitas vezes, tudo o que temos é um buraco com nosso nome. Tudo o que temos com nosso nome é um buraco. É isso.

Você mesma fez as ilustrações do livro. Como foi o processo?

Eu não sei desenhar, né? Nunca fiz aulas, nunca nem tentei desenhar nada, porque botei na cabeça que não era pra mim. A gente faz isso. Bota na cabeça que não sabe desenhar, que não sabe escrever, dançar, cozinhar, enfim. Mas aí eu pensei que eu queria fazer esse livro sobre as coisas feias da sociedade, de nós, do individual, do coletivo. Pensei em ilustrações em carvão, para mostrar o animalesco, o buraco, o cru. E pensei que, se eu fizesse, isso seria ainda mais orgânico. Eu poderia mostrar para outras mulheres que a expressão é livre. Não precisa ser idealizada. Ela pode ser apenas real, pode ser a sua expressão, uma expressão coerente com o que você deseja transmitir.

Então eu fiz todas as ilustrações em três dias. Eu me trancava no escritório, colocava uma playlist de Ópera no Spotify – eu adoro Ópera – e fazia tudo no impulso. Era uma sujeira só. No fim, acho que o livro ficou lindo dentro de sua feiura. É isso mesmo. É um livro que eu adoraria ter, como leitora.

Você participou do processo de produção gráfica do livro? Como foi?

Participei bastante, porque o designer responsável pelo projeto gráfico, capa e diagramação é meu melhor amigo de adolescência, o Rômulo Aragão. Então ficamos muito tempo juntos, pelo Whatsapp, falando sobre o livro.  Muitas vezes ele fazia algo e me mandava, e eu pirando do outro lado. Foi incrível como ele conseguiu traduzir perfeitamente a atmosfera do livro. Ele pegou minhas ilustrações e fez um uso incrível delas, aproveitou bastante. Eu também dei algumas indicações do que eu gostaria, de algumas poesias que eu gostaria de valorizar mais, por terem um significado maior pra mim. Encontramos soluções juntos para algumas questões. Mas sou muito grata porque pude fazer isso com um amigo, tenho certeza que o resultado ficou perfeito porque ele sabia exatamente o que eu queria, mesmo que eu não falasse.

Este é o primeiro livro a sair pelo Ferina. Qual é a proposta do selo?

Por ser o primeiro livro que saiu pelo selo Ferina, acho que ele é um bom representante da nossa proposta. Temas fortes, autoras com essa pegada feroz, com profundidade. Autoras de todas as regiões do Brasil, de todas as cores, orientações sexuais, enfim. Nossa missão é publicar mulheres todas. Temos limitações, claro, porque se trata de uma editora independente, mas queremos fazer tudo com muita verdade e assertividade.

Por aí, vem o livro de contos do #LeiaMulheres, que tenho muito prazer em trabalhar junto. E estou de olho em novas autoras para nosso catálogo. Estou em busca de escritoras indígenas que sejam assim bem ferinas. Nosso site (www.ferina.com.br) está disponível para quem quiser conhecer um pouco mais sobre nós. Aproveitem e conheçam nosso Conselho Editorial formado por 11 mulheres diversas e maravilhosas. Vocês vão entender bastante da nossa proposta.

Quais seus planos futuros para o Ferina? Já pode adiantar alguma novidade?

Além do livro de contos do #LeiaMulheres, estamos avaliando um romance. No momento, estou realmente em busca de uma autora indígena. Gostaria de publicar uma autora indígena que se encaixe na nossa linha editorial. Mais jovem, mais velha, tanto faz. Mas precisa ter um elo com suas origens, é claro, e precisa ter um texto Ferina. É frustrante esbarrar com os desafios da dominação do sudeste e do sul, mas contamos com indicações e amigos para que cheguemos até escritoras incríveis. Em breve também abriremos uma chamada para originais. Por enquanto, estamos nos organizando. Se ficar alguma dúvida, basta ir até nosso site, que tudo está explicadinho por lá.

Quais foram suas principais influências? E quais autoras você recomenda para nós?

Tenho dificuldade em citar influências por nomes, porque acho que quando a gente cita pessoas do “passado”, elas acabam se tornando muito definitivas. Eu prefiro falar de dois jeitos: 1) Minha maior influência é a poesia, incluindo a de cordel. Porque me dá ritmo, melodia, rima. Porque eu amo poesia, porque eu enxergo as coisas para além do seco; e 2) Minhas influências são as mulheres e as pessoas que leio hoje, aquelas que vivo divulgando no meu Instagram. Mulheres brancas, negras, indígenas, homens negros, indígenas, pessoas do norte e do nordeste. Essa galera que eu saio catando, mesmo com todas as barreiras do mercado editorial, e que faço questão de espalhar por aí. Sinto que minha escrita é super enriquecida dessa forma, que aprendo muito e que sou muito inspirada por essa coletividade.

Mas gostaria de recomendar os Cadernos Negros, que em 2017 publicou sua quadragésima edição. Nos Cadernos Negros eu li minhas primeiras autoras negras: Conceição Evaristo, Esmeralda Ribeiro e Miriam Alves. Vocês precisam conhecer Cadernos Negros. Precisam comprar, ler, divulgar e valorizar. É de uma resistência, de uma revolução. É inexplicável de incrível.

Quais são os seus projetos futuros?

Quero escrever alguns cordéis mais adultos, com uma pegada diferente. Quero desenvolver mais contos, quem sabe fazer um ebook, um livro, não sei. Estou ainda pensando nisso. Quero trabalhar algo com meus cordéis infantis. E, para mais perto, estou colocando bastante energia em expandir o Clube da Escrita Para Mulheres, meu projeto criado em 2015 e se mantém firme até hoje, contando com a força de outras duas escritoras que coordenam o Clube comigo, a Dani Costa Russo e a Anna Clara De Vitto. Tenho sempre muitas ideias e amo fazer isso em coletivo! 😊

E para finalizar, como os leitores podem adquirir seus livros?

Para adquirir meus livros, basta entrar na minha lojinha: www.loja.jaridarraes.com

No campo de comentários da compra, você pode pedir que eu mande com dedicatória, e eu farei isso com todo amor do mundo.

Obrigada, Jarid!

Leia Mulheres

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