Meus Desacontecimentos: história da minha vida com as palavras

Por: Lindevania Martins | Em: 20 / junho / 2018

A obra lida pelo Leia Mulheres de Porto Alegre, neste maio de 2018, foi Meus Desacontecimentos: história da minha vida com as palavras, de Eliane Brum.

Este é um livro de memórias, no qual a infância é percorrida numa longa cadeia de afetos. Mas também é um acerto de contas com o passado, no qual várias experiências são retomadas e ressignificadas à luz do momento presente. É, ainda, uma narrativa de formação, na qual Eliane Bum organiza o seu passado a fim de estabelecer uma história coerente de gestação da sua identidade enquanto jornalista e escritora.

No livro recheado de palavras sombrias como “túmulo”, “morte”, “dor”, “medo”, e “cemitério”, a morte é tratada com bastante leveza, sendo o ponto de partida para que a autora se pergunte qual lugar ela ocupa no mundo.

A primeira morte que lhe impacta é a da irmã velha. A menina sente que nasceu para substituir aquela irmã. Se aquela não tivesse falecido, não haveria razão para sua existência. Então, mesmo observando a própria mãe se debulhando em lágrimas pela morte da outra, não há como deixar de desejar que a irmã tivesse morrido.

Outra morte importante é a da avó de Eliane. A avó descendia de uma família que falava com os mortos e que os observava circulando no cotidiano, entre os vivos. Quando Eliane compra seu primeiro apartamento em São Paulo, leva da cidade interiorana de Ijuí (RS) para a nova casa os objetos da falecida avó para que seu fantasma pudesse melhor transitar pela nova morada.

Uma terceira morte relevante é a de Luzia. Ela foi a primeira professora do seu pai, a que o “arrancou da cegueira das letras” e abriu caminho para que a autora tivesse uma relação mais íntima com a escrita, relação  que a salvou do silêncio e do escuro de túmulos e mortes.

Muito sensível o relato do encontro da Autora com um índio cuja principal proeza era a de escrever as orações católicas na sua língua de índio. Marcante, ainda, o encontro aterrorizante entre a menina e três crianças moradoras de rua que, lhe ameaçando com injeções recolhidas no lixo, pedem que entregue a eles tudo que ela tem. A partir destas cenas, a autora reflete sobre as relações sociais e a desigualdade.

E se no livro há frases como “Nasci não de um, mas de vários túmulos”, ali também aparecem “rosas” e “jardins”. Os jardins são símbolos de resistência das mulheres da  família da autora, “que se insubordinavam em verde, com suas coxas e suas vaginas de flor carnívora”.

E é com essa bela imagem de um jardim selvagem, onde os corações e os sexos das mulheres pulsam em desatino, que findamos este texto. Mas não sem antes voltar a falar de inveja. É que o livro, apesar das singularidades da vivência da autora, também provoca uma sensação de familiaridade: em algum lugar, as crianças todas se parecem. Contudo, pois mais interessantes as experiências infantis que tenhamos tido, vamos combinar, não conseguiríamos escrever com tanta beleza quanto Eliane Brum, não é mesmo?

Lindevania Martins

Lindevania Martins é bacharel em Direito e Mestre em Cultura e Sociedade (UFMA). Defensora pública atuante na Defesa da Mulher e População LGBT (MA). Poeta, é autora dos livros de contos “Anônimos” e “Zona de Desconforto”. Possui trabalhos publicados em antologias. e revistas. Anota coisas no blog “Catálogo de Indisciplinas”: https://catalogodeindisciplinas.wordpress.com/ .

Veja outros posts de Lindevania Martins