Heroínas

Por: Aldrey Riechel | Em: 25 / junho / 2018

Creio que nunca demorei tanto para ler um livro tão curto. Precisei intercalar várias outras obras entre um conto e outro do livro Heroínas, de Claude Cahun. Não que o livro tenha linguagem difícil ou cansativa, pelo contrário. Mas cada crônica me jogou em uma espiral de possibilidades, desconstruções e novas dúvidas que precisei de um tempo para digerir. Heroínas é um livro para degustar.

Em pouco mais de 140 páginas, Cahun reconta histórias de mulheres dos contos de fantasia infantil, figuras bíblicas e da mitologia. Porém o faz usando uma perspectiva bem peculiar: a narração dá vida às personagens complexas. Criando identidades conflitantes com o que habitava o nosso imaginário. Você vai descobrir que Eva, Dalila, Bela e Cinderela não são nada do que nos contaram.

Se for ler, saiba que irá se deparar com uma fina ironia. Para a autora certo e errado não importam. O desejo sim é relevante. A verdade? Superestimada. Cahun utiliza muito bem a desconstrução e forma novas linhas que não são tão definidas. O que dialoga muito com a sua vida.

Nascida Lucy Schwob, na França em 1894, adotou o nome de gênero ambíguo porque, em suas palavras, “neutro é o único gênero que me convém”. No livro dedica para si mesma o conto “Salmacis, a Sufragista”. No relato do poeta romano Ovídio, Salmacis é uma ninfa que consegue se unir a Hermafrodito, filho de Hermes e Afrodite, por quem era apaixonada e com ele formar um único corpo.

Famosa por seus autorretratos andróginos e fotomontagens, também era poeta, ensaísta, feminista e jornalista. Viveu longo romance com Marcel Moore, nome adotado por Suzanne Alberte Malherbe. Suas histórias são complementares, atuaram lado a lada na arte e na vida política. Chegaram a ser presas em 1944, por participarem de protestos contra a guerra e a ocupação nazista.

É espantoso perceber o quanto seu nome foi apagado da história, já que Cahun foi também importante na criação e consolidação do movimento Surrealista.

Foi somente nos anos 80, com o crescimento do movimento queer, que parte do seu trabalho foi resgatado – influenciando até David Bowie, segundo dizem por aí. E somente parte foi resgatado porque muito se perdeu, principalmente após invasões da polícia alemã em sua casa durante a Segunda Guerra Mundial. De família judia, foi presa e enviada para campos de concentração. Morreu em 1954 de uma parada cardíaca, já livre, porém em decorrência das prisões.

Difícil escolha ao escrever sobre Cahun é a de usar “ela”, pois esta é uma discussão muito atual. Em sua época nem existiam nomes para gênero fluido ou não-binário. A verdade é que ainda estamos adaptando nossa escrita para que ela englobe os diversos gêneros existentes e mesmo a ausência de um ou outro. Resgatar seu trabalho é de vital importância para esse debate que, como nos ensina Cahun, não é nada atual.

Seja pela história da escritora ou pela obra que destrói as limitações do que é ser mulher, Heroínas é um livro necessário.

**

O livro foi publicado pela editora independente A Bolha. Sabendo que nem sempre os livros são acessíveis, existe no site a campanha “Pague quanto Puder”, para aqueles que não podem pagar o preço de capa.

Aldrey Riechel

Aldrey Riechel é jornalista, ilustradora e escritora. Atua como jornalista ambiental no terceiro setor desde 2008. Integrou a rede OXFAM International Youth Partnerships até 2010. Integrante e idealizadora do coletivo artístico Não-Lugar.

Veja outros posts de Aldrey Riechel