Escritoras paraenses: uma reflexão

Por: Leia Mulheres | Em: 11 / junho / 2018

No mês de abril, a escritora paraense Paloma Franca Amorim[1] levantou alguns problemas existentes na programação da XXII Feira Pan-Amazônica do Livro[2]. Paloma problematizou a formatação na qual a feira estava sendo elaborada, principalmente, no que tange à relação de gênero, classe e raça diante da escrita e dos pluriversos literários existentes. A XXII Feira, organizada com apoio do Governo do Estado do Pará e com a Secretaria de Cultura do Estado, é um dos principais eventos literários existentes no Pará e no Brasil e nos cabe, aqui, junto com o levante da escritora Paloma, defender a causa literária em prol de escritoras que vêm do norte.

Logo após a postagem do cartaz que simbolizava a abertura do referido evento (na figura abaixo), Paloma Amorim postou[3], no dia 18 de abril, em sua página do Facebook, uma nota de repúdio informando o silenciamento de mulheres negras, indígenas, afro-indígenas e não brancas diante da programação principal da Feira Pan-Amazônica. A escritora, então, mobilizou-se em prol de uma causa anti-racista-misógina afirmando: “Põem uma mulher negra com livros na cabeça no cartaz e não tem uma mulher negra na programação principal da feira pan amazônica do livro.” A feira estava, portanto, através de um cartaz racista e machista, reafirmando as decisões racistas e misóginas institucionalizadas do Estado: o racismo institucionalizado a partir de um cartaz.

Cartaz da feira retirado de circulação

Na imagem, podemos ver uma mulher negra em agência corporal com uma bacia de livros sobre à cabeça, é necessário entender que a imagem da mulher negra trabalhadora, forte, “pronta para o que der e vier” é um produto historicamente construído a partir de regimes coloniais-imperiais. Precisamos, portanto, ler a imagem a partir das nossas perspectivas semióticas e nos perguntar: os livros na bacia estão para a mulher negra assim como estão para Age de Carvalho (escritor branco paraense homenageado na XVII feira)?

O cartaz está dentro de uma lógica excludente e estruturada dentro de investidas modernas, investidas que organizam os espaços reservados à literatura branca e masculina enquanto únicos e universais, esse regime de representação (utilizando as investidas teóricas de Stuart Hall) fundamenta e estrutura práticas racistas. E, automaticamente, alimenta os silenciamentos e a invisibilidade da escrita subalternizada de mulheres negras, indígenas, afro-indígenas e não brancas.  Após o avanço da escritora, o cartaz foi retirado e substituído, além disso, a escritora também foi censurada no jornal O Liberal para o qual ela escrevia desde os 18 anos, o que a levou a encerrar suas atividades como colunista do jornal. Aqui temos a retórica do silenciamento: Paloma agenciou uma luta e sofreu ataques e vontades “superiores” do silenciamento.

A ausência de representação protagonizada por mulheres não brancas, negras, indígenas ou afro-indígenas, suscitou no Leia Mulheres o exercício reflexivo sobre como a branquidade silencia essas escritoras em nossa região, sendo assim, julgamos oportuno fazer uma matéria abordando essas problematizações. Por estarmos dentro dessa lógica e sermos consideradas, à primeira vista, brancas, não buscamos acessar esse tipo de literatura amazônida para reverter ou criar uma fissura nessa condição com o intuito de protagonizar um espaço que já possui protagonistas e donas de falas próprias. Nossa tarefa aqui é pesquisar um material literário que já existe e criar um novo diálogo com a literatura amazônida negra, indígena, afro-indígena e não branca.

Nas livrarias da cidade de Belém, seguem os clássicos canônicos e best-sellers. A cultura capitalista procura expor em suas vitrines os livros mais vendidos para que continuem trazendo os maiores lucros, faz parte do negócio. E onde ficam as escritoras daqui, nesse sentido? Não há políticas públicas que nos façam deslocar e dificilmente é ofertada nas escolas do ensino básico, por exemplo, uma atividade que nos incentive a conhecer grandes escritoras de nossa terra, como a escritora paraense Maria Lúcia Medeiros, por exemplo. Vale lembrar que nem nas universidades podemos contar com esse tipo de incentivo, o curso de Letras da Universidade Federal do Pará não conta, em sua grade obrigatória, com uma disciplina voltara à literatura paraense e amazônica – e se tivesse, será que as escritoras seriam notadas?

Quantas escritoras não brancas paraenses nós já lemos? Não é fácil de admitir que são poucas. Em termos de Amazônia, esse espaço geo-histórico construído a partir de várias dinâmicas coloniais, é importante refletir sobre a nossa diversidade. Temos uma região extremamente rica, com diversidades étnicas, linguísticas, de misturas. Produzimos a nossa literatura e ela não é menor, é literatura. Suas motivações são diversas, suas vivências também. Pensar fora do ocidental pode parecer diferente demais, no começo, mas é só uma questão de reajustar nosso caminhar. Quem já leu Grande Sertão: veredas, sabe que no começo parece difícil, depois o caminhar reajusta.

Assim, a literatura pode ser uma ponte para entendermos a diversidade do mundo e dos mundos avizinhados ao nosso.  Nesse sentido, não nos cabe mais procurar entender o mundo a partir da literatura escrita, apenas, por homens e mulheres brancas, por homens e mulheres de países altamente desenvolvidos, por homens e mulheres com privilégios editoriais e livrescos. O mercado editorial também reproduz esses repertórios colonialistas do universo literário. Se as publicações quase nunca trazem uma escritora fora dos padrões “brancos e classe alta”, como nós, leitores, faremos para lê-las? Essa é uma dificuldade para nós, pois, o mercado editorial acaba nos aprisionando nesse regime de representação que supervaloriza a escrita e a fala de pessoas brancas e ricas.

Atualmente, se pesquisarmos, encontraremos muitas autoras à margem desse processo, o que é revolucionário, sim; mas, sabemos que é um processo que caminha a passos lentos, daí uma necessidade de conversarmos com essas escritoras, divulgarmos suas obras e, sobretudo, lermos sua literatura. Buscamos, então, entender as perspectivas de vida de duas mulheres escritoras nortistas, e saber sobre a relação entre mulher e literatura a partir das margens.

Se a literatura tem o poder de humanizar ainda mais o que já é humano, ela o faz com mais potência por meio da amplificação de nossas visões de mundo, através da perspectiva de uma mulher indígena, de uma mulher negra da Amazônia, de mulheres que misturam a nossa formação paraense e nortista, com nossas cores, cabelos, formatos de nariz, nossa maniçoba e nossos ritmos.

Que conheçamos os trabalhos de nossas escritoras merecedoras de todo espaço nesse cenário literário que exclui e silencia. Que façamos uso de nossas vozes para pensar nessa literatura que carrega em si a vitalidade contra-hegemônica que encanta! Sigamos, pois.

[1] Paloma Franca Amorim é escritora paraense, mora em São Paulo desde os 18 anos de idade. Foi cronista do jornal impresso O Liberal, autora do livro “Eu Preferia Ter Perdido um Olho” publicado pela editora Alameda, também é escritora de espetáculos, escreveu o espetáculo “Cidade das Nuvens” e a peça “A Casa dos Homens”, entre outras produções militantes da causa feminista.

[2] Quando tudo começou, em 1997, como um projeto ainda tímido e pequeno, a feira ocupou uma área de 2.000 m² no Centro Cultural Tancredo Neves (Centur), com cerca de 66 estandes e uma média de público de 102 mil visitantes. Neste endereço ficou por seis anos, mudando-se para a Companhia Docas do Pará, com um espaço maior, 10.000 m², no ano seguinte.

As próximas edições ocuparam um galpão no Hangar (antes da reforma) e o Centro de Eventos Júlio César, onde várias tendas eram montadas para atender ao público. Foi a partir da 11ª edição que o centro de convenções da Amazônia tornou-se a casa fixa da Pan-Amazônica, disponibilizando uma área de 24 mil m² para a exibição dos 225 expositores e para a circulação de mais 400 mil visitantes.

[3] O post de Paloma teve repercussão nacional, teve 328 curtidas e 175 compartilhamentos de norte a sul. A partir disso, alguns jornais também publicaram matérias da escritora apontando os problemas da feira.

Texto escrito por:

Pamela Soares Alves, Licenciada em Filosofia e Administração – UFPA, Professora de Filosofia, Membro do Grupo de pesquisa Eneida de Moraes – UFPA.

Pamela Raiol Rodrigues, graduanda em Letras – língua portuguesa na UFPA e mediadora do Leia Mulheres Belém.

Josiane Martins Melo, museóloga e historiadora formada pela Universidade Federal do Pará. Integrante do Grupo de Estudos Culturais na Amazônia e mediadora do Leia Mulheres Belém.

Imagem de destaque: Darren Thompson (EUA, 1968)

 

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