Enterre seus mortos

Por: Fabiane Secches | Em: 27 / junho / 2018

Um homem simples que executa tarefas. É assim que o narrador de Enterre seus mortos (Companhia das Letras, 2018, 131 páginas) define o personagem Edgar Wilson. Quem acompanha a obra da escritora e roteirista Ana Paula Maia já o conhece bem: Edgar Wilson surge ora como protagonista, ora como coadjuvante em alguns de seus romances anteriores.

Cada livro retrata um momento diferente de sua vida, a partir de uma cronologia não linear. Temos vislumbres de sua velhice, depois retornamos à vida adulta, acompanhando o personagem em diferentes trabalhos. O tempo vai e vem, sem precisão absoluta. É possível estimar, pela ausência de aparelhos celulares e da internet, que as histórias se passem entre os anos 1980 e 1990, em algum lugar ermo do Brasil.

O nome do personagem, por exemplo, é uma homenagem a Edgar Allan Poe: Wilson vem do conto “William Wilson”, em que Poe segue a temática do duplo (doppelgänger). Maia se diverte dizendo que gosta da mistura e que o nome Edgar Wilson tem apelo popular. “Parece nome de cantor sertanejo”, comenta, divertida, em uma entrevista à TV Cultura. As iniciais E.W. voltam a aparecer em outros personagens dos romances, como é o caso de Elvis Wanderley, Erasmo Wagner e Ernesto Wesley.

De certo modo, o tema do duplo também está presente na obra de Maia, que sempre emparelha seus protagonistas com outros homens, revisitando a experiência da amizade. São essas relações de afeto fraternal, bem como as relações entre esses homens e os trabalhos brutais que desempenham, que estão no centro de seus romances. A investigação da relação entre o homem e o trabalho começou com o romance Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos (2009), que reúne duas novelas, a que dá título ao livro e O trabalho sujo dos outros.

Dessa vez, Edgar Wilson está acompanhado de Tomás, um padre excomungado com quem trabalha no órgão responsável por recolher animais mortos na estrada. A cidade é assombrada pelas explosões de uma pedreira, que deixa vidros estilhaçados, carros marcados e compromete a saúde respiratória de quem vive por lá. Para Maia, a experiência de trabalhos brutos e da naturalização da violência “molda o caráter” de seus personagens, como eles se relacionam com o mundo a partir desses trabalhos, como são vistos a partir desses trabalhos. Seus personagens são lixeiros, desentupidores de esgotos, cremadores, operadores de britadeiras perdendo a audição.

Os animais também são como duplos dos homens: o abatedouro de antes, o moedor de cadáveres de agora, o bode Tonhão de O trabalho sujo dos outros, barbudo como os personagens. A alegoria de seus romances faz referência ao desamparo a que homens e animais estão entregues.

Maia se aproxima de universos sombrios com honestidade, sem eufemismos. Na série de entrevistas Encontros de Interrogação, diz que consegue visitar lugares estranhos e desconfortáveis porque está acompanhada de personagens brutos que podem ajudá-la a lidar com essa brutalidade, um contraponto à sua fragilidade. Como autora, conta que fica atrás desses personagens e portanto se sente próxima, mas protegida.

“A dureza da linguagem de Maia amplifica a rudeza de seus personagens com um estilo que não é, em primeira instância, literário. (…) a ficção de Maia explora estilisticamente a pobreza de recursos, assim como a tematiza em seus enredos”, escreveu Joca Reiners Terron em artigo para a Folha de S.Paulo. Para Terron, a obra de Maia “vem construindo um pequeno Brasil distorcido que não deixa de reproduzir o grande Brasil, uma gigantesca ficção brutalizante em forma de país”.

Na entrevista concedida ao programa Entrelinhas, da  TV Cultura, Maia diz: “Minha literatura traz à tona, ela não cobre. (…) Às vezes a retórica leva um glamour que não existe a algo, mascara um pouco. Eu, não. Eu só escrevo porque eu construo algumas ideias. Não escrevo pela beleza das palavras. Não escrevo porque a forma, ou a estrutura… não estou interessada nisso”.

Enterre seus mortos foi considerado uma mistura de novela policial, faroeste de horror e romance filosófico, mas a habilidade narrativa de Maia faz com que a obra escape das classificações de gênero e se firme como ponto de exceção na literatura brasileira contemporânea. Embora dialogue com a obra de outros autores nacionais, como Rubem Fonseca e Patrícia Melo, também se distingue em alguns aspectos.

Em texto publicado na revista Cult, a professora de literatura Maria Fernanda Gárbero observa que “Nas narrativas de Maia, não cabem histórias de amor romântico, nem emulações de piedade. O afeto por suas personagens se constrói – ou não – numa perspectiva ética, em que cada capítulo parece nos confrontar com a possibilidade (ou disponibilidade) de reconhecimento desses sujeitos a partir do literário. Talvez seja por essa provocação experimentada pela ficção que não abandonamos Edgar Wilson. Nem nós, nem a autora cuja “saga” ainda parece não ter fim”.

Enterre seus mortos é o sétimo romance de Ana Paula Maia, que também tem contos publicados em algumas antologias, entre elas 25 Mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (Record, 2004), e é roteirista do longa-metragem Deserto (2017) ao lado do diretor Guilherme Weber.

Fabiane Secches

Fabiane Secches escreve sobre cinema, literatura e psicanálise.

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