Tudo que deixamos para trás

Por: Michelle Henriques | Em: 20 / maio / 2018

“Se eu soubesse quanta agonia o papel de parede amarelo me daria, nunca o teria aprovado. Pois a cor amarela não se contentava em estar no papel de parede, quer eu fechasse os olhos, quer os mantivesse abertos, ela estava ali da mesma forma maldita.” (pág. 18)

Gosto de começar minhas resenhas sempre com alguma passagem do livro que eu tenha gostado. Essa prendeu minha atenção logo no começo. Intencionalmente ou não, a autora norueguesa Maja Lunde trouxe à minha mente O papel de parede amarelo de Charlotte Perkins Gilman.  Tudo que deixamos para trás é o primeiro livro adulto de Lunde, até então a autora publicava infanto-juvenis. Lançado em 2015, ele chegou ao Brasil no ano seguinte pela Editora Morro Branco. Sei que Kindred – Laços de Sangue de Octavia Butler é a grande estrela do catálogo da editora (posição merecida, inclusive), mas Tudo que deixamos para trás também tem seu brilho.

Como a capa sugere, o livro trata de abelhas, mais especificamente, do desaparecimento delas. Porém, o livro vai além disso. Acompanhamos as narrativas de três personagens em épocas e lugares distintos, e os capítulos se dividem entre as suas vozes.

O livro começa com Tao em 2098, na China. Ela vive com seu marido Kuan e o filho deles, Wei-Wen em um cenário distópico. Aos poucos sabemos mais das condições que essa família vive, de escassez de alimentos, numa era em que a tecnologia pouco importa, pois o mais essencial à vida está em falta: alimento. Os insetos foram instintos, e sem eles, mais especificamente sem as abelhas, não há polinização, e por sua vez, não há agricultura. O casal trabalha numa vida de quase escravidão, polinizando manualmente. Apesar das dificuldades, a família tenta levar uma vida feliz, até que durante um dia de folga Wei-Wen sofre alguma espécie de acidente e é levado às pressas para o hospital. Sem que a família tenha conhecimento, ele é transferido para Pequim. Desesperada atrás do filho, Tao parte em busca dele. A cidade está praticamente deserta e oferece muitos riscos.

O próximo narrador é William, que vive na Inglaterra no ano de 1852. Ele havia sido um pesquisador na juventude, mas aos poucos largou os estudos para cuidar de uma loja de sementes e dar suporte à sua numerosa família. Entre seus muitos filhos está Edmund, o único homem, um jovem no qual ele deposita suas esperanças e guarda dinheiro para que ele possa cursar a faculdade. Charlotte, por sua vez, é a filha mais dedicada, que se interessa pelos campos de estudo de seu pai. Mas como era comum na época, é deixada de lado por ser mulher. Ela não merece as mesmas oportunidades do filho. Após uma conversa com um antigo professor, William cai em profunda depressão, e sem sair da cama, assiste a família se despedaçar. As filhas imploram para que ele reaja, mas só quando filho vai a seu encontro, ele decide tentar. Ele recomeça suas pesquisas, e com o auxílio de Charlotte, se aprofunda no estudo da apicultura.

Por último, somos apresentados a George, nos Estados Unidos, em 2007. George possui uma fazenda focada em apicultura. Ele herdou o negócio de família e gostaria que seu filho Tom seguisse os mesmos passos, mas o mesmo está focado nos estudos e pretende se focar na escrita. Esse é um fato que desagrada bastante ao pai, que sonhava que o filho assumisse o negócio após se formar. Tudo vai bem na fazenda, até que suas abelhas começam a desaparecer misteriosamente. Neste ano começa o colapso, aos poucos as abelhas deixam de existir no mundo inteiro.

Como é de se esperar, em algum momento essas três histórias vão se entrelaçar, e a forma com que Lunde conduz a narrativa é impressionante. A escrita é muito fluída e as quase 500 páginas passam num piscar de olhos. Claro que fiz um breve resumo acima dos personagens, eles são muito mais complexos do que isso. A autora aborda questões familiares de uma forma muito interessante, desde o machismo, até relações de pais e filhos, e do que uns esperam dos outros.

A autora deixa as explicações científicas para o final do livro. No fim das contas as abelhas são um plano de fundo para as narrativas dessas personagens. É bastante interessante conhecer as histórias de cada um e de como suas vidas foram impactadas de alguma forma pelas abelhas.

Recentemente li Só os animais salvam de Ceridwen Dovey e fiquei pensando numa questão que um dos contos traz: o que acontece com os animais de zoológicos em tempos de guerra? Eles são alimentados? Em Tudo que deixamos para trás esse questionamento volta. Em uma cidade esvaziada às pressas, quando as pessoas precisam ir para os campos para produzir alimentos, o que acontece com esses animais? Além disso, com a extinção dos insetos, o que acontece com os animais que se alimentam deles? E com os animais seguintes da cadeia alimentar?

É mais um dos livros distópicos que não se mostram tão distantes da nossa realidade. A autora cita nas narrativas de George um evento chamado Distúrbio do colapso das colônias (DCC), que se refere ao desaparecimento de abelhas. Eu não conhecia o termo e não sabia que ele realmente existia. As causas desse desaparecimento não são bem conhecidas, mas provavelmente se referem a uma combinação de fatores como perda de habitat, doenças e o uso de agrotóxicos.

Em 2012 houve vários casos de DCC no Brasil e o Ibama proibiu temporariamente o uso de quatro tipos de inseticidas em lavouras, mas claro, o lobby do agronegócio pressionou e o Ibama teve que voltar atrás na decisão. Mais um livro muito bem escrito, que além de proporcionar uma ótima leitura, ainda traz questionamentos a respeito de nosso futuro.

Michelle Henriques

Michelle Henriques tem 30 anos e é formada em Letras. Louca dos gatos e dos livros, é colunista no blog O Espanador e participa do podcast Feito por Elas.

Veja outros posts de Michelle Henriques