Sólido, gasoso e líquido, “Do desejo” e suas múltiplas formas

Por: Pilar Bu | Em: 11 / maio / 2018

Hilda Hilst aconteceu na minha vida primeiro pela poesia. Enquanto eu percebia que as pessoas à minha volta corriam ávidas para ler a trilogia obscena, surpresas com a audácia e inventividade de sua prosa, eu fuçava e fuçava buscando a maestria de seus versos. Admito que conheci Do Desejo muito tarde, num momento extremamente importante de conhecimento interior e busca por meu lugar no mundo. Como uma amiga, Hilda me pegou pela mão e disse: Vai. Obedeci. Uma coisa que sabemos logo de cara sobre o livro é que ele reúne sete obras originais: Do Desejo, Da Noite, Amavisse, Via espessa, Via vazia, Alcoólicas e Sobre tua grande face. Para além de uma antologia poética, o que se vê  é uma narrativa lírica de muita potência.

Somos conduzidos por Hilda a uma pulsante ode ao desejo, que ganha diversas formas, camadas, espessuras: é carne, matéria, neblina, nebulosidade, etéreo, líquido, intenso, questionador. O fio de Ariadne é lançado ao leitor, que vai se entregando às construções poéticas e percorre um labirinto imagético, sensorial, que se transforma. Impossível sair ilesa desse percurso.

Na parte inicial, nos poemas que compõem Do Desejo, somos conduzidos a uma intensa experiência do desejo como carne, pele, boca, toque, vontade de explorar espaços e corpos. A figura do outro que se levanta, se deita, a quem é destinada a intensidade dos versos transita entre o palpável e o inatingível, podendo ser o próprio leitor a quem se entrega a voracidade da vida, a fome de mundo, a necessidade de habitar, de compartilhar a experiência. Sem pretender chegar a uma conclusão do que seria o desejo, Hilda borra os limites dos corpos e das existências.

No poema VIII de Do Desejo, é o sangue que move e molda a vida, que faz do gozo um ritual de entrelaçamento fugidio, que sacia, desperta. No poema X o corpo já não é mais suficiente para canalizar e expressar o desejo, visto que “para pensar o Outro, eu deliro ou versejo”, por que “INCORPÓREO É O DESEJO”. Avessamento que atravessa a complexidade do sexo, a simplicidade dos códigos de intimidade e se transforma, para além do corpo físico e ganha o corpo do poema, nos jogos de palavras e no lirismo latente. Esse outro que se transforma, de objeto de desejo para ferramenta de um discurso que transcendente a matéria mais física e palpável.

Hilda Hilst já está preparando seu leitor para entrar nos poemas de Da Noite, que traz um tom muito mais crepuscular, nebuloso, em que o olhar vai aos poucos se acostumando com a neblina. As paisagens construídas trazem animais, pedras, barcos, fendas, abismos e falésias, nos conduzindo pelo labirinto de um desejo de que não se satisfaz apenas com o corpo, exige mais dedicação, permanência.

O sexo,  evidenciado pelo  verso “A vertigem de ser, a asa, o grito” do poema II de Da Noite, habita uma região de conflito, caótica, que está na sombra. A aparente contradição que o poema apresenta entre o desejo e a percepção de sua insuficiência para saciar as necessidades da eu lírica é a constatação da complexidade das relações com o outro. Por que é perecível, e habita essa região nebulosa, precisa ser abandonado, fato que se verifica na expressão “te dizer adeus”. A poeta evidencia que isto é importante para dar lugar à luz, ao imaterial, à transformação desse desejo em algo que não é mais apenas carne.

Por meio do poço, dos barcos, ou mesmo no ato de bebê-la, a água é símbolo de vida, nascente e leva o leitor por fluxos e correntes. É sabedoria, desejo de ocupação e resistência. No poema V, de Da Noite, a água é uma fonte de sabedoria que não foi entregue à mulher, visto que a eu lírica afirma que não bebeu dela. Entretanto percebemos que essa sabedoria foi conquistada, uma vez que foi preciso decifrar códigos, habitar lugares interditados, onde ela se sente despertencida, deslocada, “inconexa” e “parca”. E não aceitando esse impedimento, Hilda Hilst nos convida a tomar e beber seu corpo, a subverter os padrões e experimentar essa sabedoria outra que atravessa os tempos, por que é “antiquíssima, nova”. A mulher na obra aparece como transformação e questionamento ao que é posto como tradição.

Em Alcóolicas, penúltima parte do livro, encontramos o momento que acredito ser o mais intenso do livro Do Desejo. O prazer, o gozo, a vida em estado líquido ganham a rua e a rebeldia. Com seu casado rosso, seus coturnos, sua necessidade urgente de beber a vida, se incorporar a ela num eterno estado de questionamento de padrões, estéticas sociais e literárias, na compreensão da existência que se reinventa.

A recusa do estado sólido, a embriagues, a leitura de um mundo caduco que necessita compreender novas possibilidades de habitar em si mesmo e relacionar-se com os outros levam a poesia a um lugar da ordem da desconstrução. O olhar desanuviado, sem neblinas, se refaz em fluidez líquida e pulsante, os poemas constroem um corpo de mulher que percorre e se deixa percorrer pela cidade, que se reconstrói diariamente para compreender-se no mundo. Uma vida líquida que se pretende casa, comida, compreensão, afeto, que extrapola e imiscui os limites do eu e do outro por que agora já não importa a separação, é preciso reconstruir a partir de um estado de consciência que não mora na sobriedade.

Ao leitor que pretende encontrar respostas eu digo: Desista! Hilda Hilst nos propõe mergulhos profundos em que a incerteza é a única certa que temos. Por isso, embarque nessa experiência pulsante do desejo que só é possível pela transgressão de Hilda Hilst. Que só é possível quando atravessamos essa jornada que nos leva a experimentar nossos corpos materiais e imateriais em suas diversas formas.  Despidos olhamos para o abismo, para as águas que correm, para a nebulosidade e vemos o desejo, e a nós, transformados em vida líquida que se bebe aos poucos, que se propõe transgressão e se renova.

Pilar Bu

Pilar Bu é vampira, leoa e mãe felina de 4 gatos. Poeta, já foi publicada em diversas revistas eletrônicas e coletâneas, seu primeiro livro, Ultraviolenta, foi lançado em 2017 pela Kotter Editorial. É uma das fundadoras ex-integrante do coletivo minaescriba, também fundou e mediou o Leia Mulheres Goiânia, além de ser uma das organizadoras do festival literário [Eu sou poeta]. Doutoranda em Teoria e História Literárias pela Unicamp, Mestra em Estudos Literários pela UFG, é obcecada por literatura como modo de vida e experiência. Atua como professora de escrita criativa, literatura e crítica literária, trabalha também com revisão de textos, redação e produção de conteúdo. Escrever é sua grande paixão.

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