Sinfonia em Branco

Por: Pilar Bu | Em: 23 / maio / 2018

Meu encontro com o livro Sinfonia em Branco, de Adriana Lisboa, acessou um turbilhão de sentimentos, curou feridas, me proporcionou a releitura de histórias partilhadas por nós mulheres, que são da ordem do individual, mas também nos unem pela coletividade que se verifica na potência dos afetos. O lirismo e a poesia com que a autora propõe e conduz a narrativa nos faz encontrar temas duros, dilacerantes de uma forma respeitosa. As metáforas e construções estéticas propostas pelas ferramentas literárias não nos agride como leitora e mulheres, muito pelo contrário, Adriana Lisboa propõe a empatia, a compreensão, a catarse ao tratar de muitas dores.

Sinfonia em Branco é um romance que traz a memória como resgate da experiência brutal do trauma. Clarice é estuprada por seu próprio pai, enquanto sua irmã Maria Inês vê a cena; a mãe de ambas, Otacília, toma conhecimento do ato do estupro, mas se silencia. Os desdobramentos da agressão sexual pautam as escolhas feitas e os caminhos trilhados pelas duas irmãs.

O processo de elaboração narrativa está empenhado em fixar o olhar na brancura que simboliza a ausência, os espaços interditados que permeiam a obra, a fim de entender quais segredos e mistérios precisam ser descortinados. Revela mulheres fraturadas que vivem em uma sinfonia pautada por esses silêncios e lacunas. A condição feminina é acessada pela memória, pela violência de gênero e o romance aborda temáticas urgentes como a perda da infância, o silenciamento, o trauma, o abandono e a disciplinarização dos corpos femininos que permeiam o percurso das personagens principais, Clarice e Maria Inês.

O uso reiterado da expressão “o tempo é imóvel, mas as criaturas (e os objetos, e as palavras) passam” entrecorta o livro, e revela que a violência é novamente sentida e revivida toda vez que a memória a resgata. O ponto que precisa ser problematizado pelas personagens, a violência sexual e suas consequências, figura como uma imensa barreira que impede as duas irmãs de conseguir buscar e viver experiências em sua completude. É preciso reelaborar o passado, enfrentar o monstro que se esconde pelos cantos sombrios da casa, para possibilitar a vida no presente e vislumbrar o futuro.

A autora se revela muito perspicaz ao dar diversas camadas para o trauma e a maneira como se lida com ele. As duas irmãs experimentam de maneiras diferentes essa questão. Clarice procurou suportar, adequar-se aos padrões sociais, mas o sentimento de despertencimento nunca deixou de acompanhá-la, como uma sombra à espreita que jamais partiria As tentativas desesperadas de esquecer revelavam o peso da violência física e simbólica. É quase como se a ausência fosse uma presença existencial pesada, em que as marcas deixadas pelo abuso se tornaram tão profundas que o corpo não podia mais suportar. Já Maria Inês se torna rebelde, subversiva, incontrolável e dona de sua própria vida e existência, que busca, incessantemente resgatar as pontas de sua vida e de certa forma reconstruir a relação com a irmã e ser seu esteio, sua companheira. É ela que vai nos revelar um olhar crítico às violências vividas tanto pelas irmãs quanto pela mãe e propõe formas mais contundentes e objetivas de reelaboração do trauma e das experiências compartilhadas por elas.

Sinfonia em Branco revela-se como uma história de amor entre mulheres, que buscam se reencontrar, a si mesmas e ao afeto perdido que poderia ter sido partilhado entre elas. E, acima de tudo, é uma história de resistência. Mulheres que resistiram, cada uma a sua forma, à sociedade patriarcal que as subalterniza.

No livro, Adriana Lisboa não apenas denuncia múltiplas formas de violência e de subalternização da mulher na sociedade, mas propõe uma desconstrução da representação feminina ao questionar certos mitos e tabus. A maternidade compulsória e a figura sacralizada da mulher-mãe endeusada socialmente é desmantelada aos olhos do leitor, visto que tanto Clarice, quanto Maria Inês e Otacília falham miseravelmente nessa função imposta historicamente desde a construção bíblica de Eva.

O sexo, os limites do corpo, o prazer feminino, o gozo e o controle das mulheres também são resgatados como forma de alertar e subverter, na contemporaneidade, a tradição e o cânone literário, social e político que colocam o feminino como objeto do discurso alheio. Adriana Lisboa devolve a voz e o poder da ação para suas personagens femininas e as coloca no centro do debate de questões que cumprem uma função importante de atender às demandas sociais de mulheres tão amplamente reivindicadas pelos múltiplos movimentos sociais e feministas.

Ao problematizar o silêncio, Adriana Lisboa denuncia a condição feminina pautada na fratura, marcada pela sociedade patriarcal e falocêntrica em que está inserida. Revela mulheres que buscam recompor os fragmentos de sua existência. Se a princípio as interpretamos como submissas e resignadas em atender aos padrões sociais, percebemos ao longo da narrativa que mesmo em suas atitudes resilientes e contraditórias elas resistem, se salvam e sobrevivem, cada uma a sua maneira.

Por meio do afeto, a sinfonia do silêncio se ressignifica em possibilidades, em reencontro, com notas e melodias que estão longe da agressão. Uma sinfonia que permite à Clarice e Maria Inês escreverem suas histórias sem olharem para trás. E possibilita,  a nós leitores, um espaço simbólico de resgate de nossas fraturas e feridas.

*Essa resenha é uma condensação de um artigo maior, de título Memória, afetividades e violências: a condição feminina em Sinfonia em Branco, de Adriana Lisboa, que foi publicado em 2017 no livro Literatura brasileira contemporânea: leituras diversas. (CAMARGO ET Al, Appris, 2017).

Pilar Bu

Pilar Bu é vampira, leoa e mãe felina de 4 gatos. Poeta, já foi publicada em diversas revistas eletrônicas e coletâneas, seu primeiro livro, Ultraviolenta, foi lançado em 2017 pela Kotter Editorial. É uma das fundadoras ex-integrante do coletivo minaescriba, também fundou e mediou o Leia Mulheres Goiânia, além de ser uma das organizadoras do festival literário [Eu sou poeta]. Doutoranda em Teoria e História Literárias pela Unicamp, Mestra em Estudos Literários pela UFG, é obcecada por literatura como modo de vida e experiência. Atua como professora de escrita criativa, literatura e crítica literária, trabalha também com revisão de textos, redação e produção de conteúdo. Escrever é sua grande paixão.

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