Entrevista: Geruza Zelnys

Por: Leia Mulheres | Em: 28 / Abril / 2018

Continuando o nosso especial, conversamos com a escritora Geruza Zelnys, que é especialista em Hilda Hilst. Confiram o bate-papo abaixo. 

Geruza, como você se descobriu escritora?

Já começamos uma pergunta difícil! A resposta óbvia para mim seria dizer que me descobri escritora escrevendo, mas percebo, agora, que não, não foi escrevendo, mas lendo. Lendo meus próprios textos. Não apenas lendo, mas me lendo em voz alta. Também não era uma leitura que tinha como finalidade reescrever ou corrigir o texto, mas a de ler-me a mim como se a uma outra. Eu passei bastante tempo escrevendo para dar sentido e entender algumas coisas que me aconteceram, então, um dia, resolvi me ler com o mesmo carinho e empatia que dispenso aos escritores queridos. Parece simples, mas é muito difícil fazer isso porque somos muito críticos e exigentes com nosso corpo-texto, sempre procuramos pelos defeitos, ou estamos tentando melhorar, o que acaba fazendo com que a gente morra asfixiada numa gaveta. Nessa leitura empática, percebi que era uma querida também. Então, arranquei a roupa e sai andando por aí assim, meio que nua.

Como é sua rotina de escrita? Você tem algum ritual?

Não tenho rotina de escrita. Infelizmente, porque tenho de trabalhar e porque gosto de ficar, no tempo que me sobra, sem fazer nada. Sou de fases e, nessa especificamente, passo longos períodos pensando e conversando com as pessoas que moram comigo, com meus amigos. Meu corpo está mudando e sinto que estou ficando mais lenta. É uma novidade. Sempre fui muito agitada por dentro. Então, estou curtindo essa espécie de transe. Mas o meu discurso ainda não se adaptou ao corpo e continuo dizendo pra todo mundo que não tenho tempo pra nada, que estou muito ocupada etc. A verdade é que passo horas adiando o que tenho de fazer. Agora, quando algo me inspira mesmo, aí eu paro tudo – mesmo que tudo seja nada – e escrevo. Pode ser um poema, ou um livro, escrevo tudo de uma vez. Não tenho uma rotina de escrita, tenho uma rotina e a escrita acontece para quebrá-la. Não sei se posso chamar isso de ritual, mas, quando entro nesse processo de excitação, costumo comer (tudo e qualquer coisa que tenha na geladeira) e fumar na janela olhando o vaivém dos carros na avenida. Tem sido assim, mas já foi diferente. Amanhã pode ser que mude. Sou geminiana, com ascendência em girassóis.

Como se deu o seu primeiro contato com editoras? Você se sentiu bem recebida no meio editorial?

Meu primeiro contato foi muito espontâneo com cerveja e petiscos. Quem me apresentou ao Eduardo Lacerda, da Patuá, foi minha amiga Raquel Parrine e ele se tornou, além de editor de 2 livros meus, um grande amigo também. Depois, em meio a muitos projetos e uma relação que envolve trabalho e amizade, publiquei com a Dobradura, do Reynaldo Damazio. Com as editoras Tatiana Kelly e Flávia Iriarte (Oito e Meio) e o editor Tiago Fabris Rendelli (Urutau), o encontro aconteceu por meio de seleção para publicação e, a partir disso, começamos parcerias muito bonitas. Enfim, sempre me senti muito bem recebida e, se acaso não fui, nem percebi. Eu sou dessas, vou meio que entrando e me sentindo em casa na casa dos outros.

Você também publica de forma independente, certo? Quais meios você utiliza? Como é a recepção dos seus leitores?

Escrevo no blog ‘geruzazelnys.blogspot.com.br’. Gosto de deixar as palavras mais livres, dormindo ao relento, apanhando sol e chuva… É preciso conhecer um pouco o mundo antes de fincar raízes, não acha? Livros são incríveis mas nem tudo cabe num projeto diagramado com capa e índice. Tem coisa que só no vento sobrevive. Com relação à recepção, não sei se tenho leitores, tenho amigos que me leem e indicam para amigos que acabam virando meus amigos também. Esses dias me disseram que um grupo de mulheres estava lendo o “esse livro não é pra você” na Casa Amarela. Eu pensei “nossa! eu tenho leitoras! que coisa incrível”. Teve uma vez que estava dando uma palestra sobre escritoras suicidas no Sesc Ribeirão Preto e uma moça levantou e recitou um poema meu de cor. Ela disse que aquele poema tinha mudado a vida dela. Fiquei muito emocionada; em casa, chorei. Por mim e por ela. Ontem, uma menina me procurou no facebook, disse que gosta muito do que escrevo. Ela me adicionou. Sou sua amiga agora; ela, minha amiga também. Eu não sei muito bem ainda o que são leitores.

Hilda Hilst será homenageada na Flip deste ano, a terceira mulher em toda a história da Festa. O que isso representa para você, dada a fama de hermética que Hilda tinha?

Acho incrível! A coisa mais bacana que poderia acontecer aos leitores da Hilda. Porque ela já morreu, então a homenagem é mais para quem está vivo, é como se nos dissessem: a gente respeita seu imaginário, sua subjetividade, suas questões, enfim, isso tudo aí que te constitui. Um encontro como esse é uma ótima oportunidade para criar novas comunidades leitoras e dar a conhecer essa voz, essa poética, esse tubo grosso no qual transitam uma infinita possibilidade de sentidos, reconhecendo sua força mediadora de encontros. É importante que Hilda Hilst seja uma mulher. Ela poderia ser um homem, mas que bom que é uma mulher porque estamos precisando muito disso agora: mulheres, médiuns. Não penso que sua obra seja hermética, mas complexa, cheia de linhas de fuga que se cruzam, se emaranham, se confundem e escapam novamente, perfurando outros limites… Por isso, não me surpreendo pelo interesse que sua vida/obra vem despertando, afinal temos somado muito em complexidade, em graus diferentes e proporcional à experiência que é sempre singular, estamos todos mais complexos. Finas estruturas pensamentais que antes eram agrupadas com o nome fácil de loucura, hoje são reconhecidas como parte do sistema, de um programa neuralógico à disposição de qualquer um. As pessoas vão se reconhecendo, não tem jeito. Enfim, somos todas/os um pouco Hilda e seus múltiplos. E é bom se ver/sentir representada.

O que você acredita que não pode faltar em uma festa literária em homenagem a Hilda?

Apaixonados. (Risos). E, também, pessoas pouco sabidas, sabe? É muito ruim pessoas que sabem tudo e ficam capturando as linhas de força de um texto. Pouca captura e muita criação. Acho que deveria ter oficinas de escrita, de corpo, de experimentação, leituras abertas, deveria ter arte. Muita arte. Coisas que fizessem as pessoas transitarem da contemplação/absorção de conhecimentos para a criação e o desconhecido. Sei lá, acho que não pode faltar vida. E a verdade é que só estamos vivos mesmo quando estamos ressuscitando os mortos. Às vezes, esses mortos somos nós mesmos.

A obra da Hilda é uma influência direta para a sua literatura?

Sim. Eu leio a Hilda Hilst há mais de 20 anos. Acho que ninguém tomaria meus textos e diria “a escrita dela é hilstiana”, mas a obra está lá como virtualidade, como uma força energizadora. Agora, quando alguém ler algo que escrevi e sentir compaixão – essa é a palavra – terá tocado no bem ali da nossa relação. É no lugar de uma ternura, de um sentimento trágico – a tragédia do corpo, a tragédia do pensar, do sentir, do não ter para onde ir indo – é nesse lugar que eu a abraço e me fundo no húmus da sua existência poética. Mas isso é raro, comumente temos conversas fáticas pela concha mágica só para manter o canal aberto, sabe? Esse tipo de conversa que a gente tem o tempo todo com todo mundo.

Como as pessoas podem encontrar os seus livros?

Pelo pouco que sei da vida desses danadinhos, sei que andam batendo ponto nas editoras. Vocês podem encontrá-los nos links:

Editora Patuá: “esse livro não é pra você” (2015, poesia) e “tatuagem: mínimo romance” (2016):

Dobradura Editorial: “9 janelas paralelas & outros incômodos” (2016, contos) e “Paisagens menores: experiências com a escrita criativa” (2017, ensaios com diversos autores):

Editora Oito e Meio: “se do meus púbis nascessem asas & outros poemas” (2017, poesia):

Editora Urutau: “folheio teus cabelos, no contratempo do vento” (2017, poesia):

Pra quem não quer se arriscar e prefere uma olhada antes nas coisas que escrevo, convido a dar uma passadinha lá no blog geruzazelnys.blogspot.com.br e no site, que loguinho estará no ar, geruzazelnys.com.br.

Agradeço demais a oportunidade de conversar com vocês! A Hilda, também.

Leia Mulheres

Veja outros posts de Leia Mulheres