A Obscena Senhora D.

Por: Mariana Zambon Braga | Em: 25 / Abril / 2018

“um dia a luz, o entender de nós todos o destino, um dia vou
compreender, Ehud
compreender o quê?
isso de vida e morte, esses porquês”

Hilda Hilst é uma daquelas escritoras que surge na nossa vida como um marco, um divisor de águas. Ela nos toma pelos braços e nos conduz a um mergulho profundo em questionamentos acerca dos nossos anseios e crenças. Nos leva a questionar a moralidade, a normalidade e a própria realidade, com seus esquemas, por vezes tão mesquinhos.

Ao menos foi essa a sensação que a leitura de A Obscena Senhora D. suscitou em mim, inaugurando a “era Hilda Hilst” na minha vida. A busca pela verdade, por Deus, pelos mistérios e desejos da alma e do corpo são temas que permeiam esse e outros textos dessa escritora tão lúcida e tão visceral, cuja obra tem sido reconhecida, infelizmente, muito tarde.

Nascida em Jaú em 1930 e falecida em 2004, Hilda Hilst é hoje considerada uma das maiores escritoras de língua portuguesa do século XX. Famosa por sua voz peculiar e, muitas vezes, subversiva, a autora criou poesia, crônicas, ficções e peças de teatro.  Construiu em Campinas a Casa do Sol, um refúgio idealizado especialmente para servir de inspiração para suas criações literárias, e que hoje abriga o Instituto Hilda Hilst.

A Obscena Senhora D., livro publicado pela primeira vez em 1982, apresenta uma narrativa a princípio difícil de acompanhar, mas que, à medida que a leitura avança, ganha uma vida própria e faz todo sentido. O texto mescla diversos dos elementos presentes na escrita de Hilda, sobretudo o fluxo de consciência e a fusão entre a escrita poética e a linguagem vulgar.

No livro, fazemos uma viagem pela mente de Hillé, uma mulher imersa em uma quase-loucura, que decide se recolher ao vão da escada de sua casa para viver o luto após a morte do amante Ehud. Tida como delirante pela vizinhança da vila onde habita, Hillé é tratada de forma hostil pelos outros moradores, como se fosse uma bruxa, insana, desvairada. Obscena. Uma senhora enlouquecida que veste máscaras e se põe a gritar e a se exibir na janela de sua casa.

Chocados por seu comportamento, os vizinhos enviam mensageiros para tentar fazer Hillé se comportar de forma mais normal. Convocam, inclusive, um padre para oferecer a confissão e a comunhão – a salvação através da fé. Ao ser questionado sobre a origem do Mal, sem saber responder às suas perguntas profundas, o padre é enxotado por Hillé em meio a grunhidos e trejeitos de loucura.

Os diálogos entre os habitantes da vila revelam a aversão que sentem por Hillé, a “porca, exibida, cadela”. Esta primeira alcunha ela assume de forma marcante ao adotar uma porca da vizinhança, a qual batiza de Senhora P. É interessante notar que, embora o comportamento de Hillé cause repulsa nesses moradores, as interações entre eles revelam um lado sórdido do cotidiano, seja pelo ódio que direcionam a ela, seja pelos vislumbres que nos dão de seus comportamentos mais íntimos e de sua sexualidade.

Em diversos momentos, fica difícil distinguir se a voz que estamos lendo é a de Hillé ou de Ehud, ou mesmo de uma terceira pessoa desconhecida. As conversas travadas entre Hillé e si mesma, entre ela e Deus, ou entre ela e Ehud se assemelham aos monólogos interiores que travamos conosco no silêncio de nossas dúvidas. É como se, mergulhando em sua loucura, Hillé conseguisse transcender a matéria e se reencontrar com seu amado em um espaço inventado, naquele vão sujo da escada, no vão escuro de suas perguntas.

Há, nessa narrativa complexa, matéria para muitas análises, por trazer uma espécie de compilação de todas as questões mais primordiais da humanidade: quem é Deus? Ele existe? o que é a alma? e o corpo? Creio que há, também, muito da própria Hilda nesse livro, repleto de referências a Deus e ao Pai, já que a autora conviveu pouco com seu pai, que foi internado por ser esquizofrênico. É nessa busca pelo Pai, seja ele homem ou Deus, que as vozes de Hillé e Hilda se confundem. Nas palavras dela, “Quase todo o meu trabalho está ligado a ele porque eu quis”.

A Obscena Senhora D. é um rico relato de uma personagem que, ao assumir seu apelido (Senhora D) poderia ser uma de nós, leitoras, tão iguais a ela em sentimentos, tão próximas quando nos questionamos sobre a vida.

“a vida foi isso de sentir o corpo, contorno, vísceras, respirar, ver, mas nunca
compreender. por isso é que me recusava muitas vezes. queria o fio lá de cima, o
tenso que o OUTRO segura, o OUTRO, entendes?
que OUTRO mamma mia?
DEUS DEUS, então tu ainda não compreendes?”

“(…) e o que foi a vida? uma aventura obscena, de tão lúcida”.

E, embora não forneça respostas concretas, esta Senhora, cujo espírito também habita, de certa forma, dentro de nós, oferece pistas sobre o sentido da existência – este, que pode ser encontrado nos mais inusitados lugares e experiências, como no vão sujo de uma escada, na morte, na loucura.

Mariana Zambon Braga

Tradutora e escritora, criadora do site Mil Palavras por Dia, colunista da revista Fale com Elas e do blog Café das Minervas.

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