Flores raras e banalíssimas

Por: Sylvia Tamie Anan | Em: 29 / Março / 2018

Flores raras e banalíssimas é a biografia de duas mulheres incríveis, a urbanista Lota de Macedo Soares e a poeta Elizabeth Bishop, escrita por Carmen L. Oliveira e que inspirou o filme Flores raras, com Glória Pires e Miranda Otto, dirigido por Bruno Barreto. O livro conta o relacionamento da escritora americana, uma das maiores poetas de língua inglesa do século XX com a urbanista que projetou, entre outras obras, o Parque do Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro.

Carlota e Elizabeth foram o segundo casal homoafetivo que conheci; o primeiro de que eu me lembro foi Maria Bethânia e uma atriz global, que vi juntas em um Jornal Nacional quando ainda era criança. Quem me contou, na época, que as duas celebridades eram um casal foi minha mãe. Quem me contou sobre Carlota e Elizabeth foi Manuel Bandeira, que as menciona em uma crônica que eu li já na faculdade. Elas também apareciam juntas numa foto sobre a história do Rio de Janeiro que eu estava consultando na época: Carlota de óculos e gravata, braços cruzados, decidida, e Elizabeth meio encolhida ao lado dela. Talvez o dado mais surpreendente disso tudo é que minha mãe nasceu em 1954, Manuel Bandeira em 1886, e nenhum dos dois parecia achar nada demais de duas mulheres manterem um relacionamento.

Quando Elizabeth Bishop e Lota de Macedo Soares se conheceram, as duas tinham 40 anos. Bishop era uma poeta só tinha um único livro publicado; Lota, culta e sofisticada, circulava nos meios artísticos da época e era arquiteta autodidata, mas não tinha podido frequentar a universidade e vivia do dinheiro da família. Bishop era frágil, doente – tinha várias alergias – e tímida, com problemas com o alcoolismo. Lota era ativa, decidida, com frequência impondo sua vontade, não raramente passando-a como um trator sobre os demais.

O livro se concentra no período entre 1940 e 1967, e trata principalmente do equilíbrio entre os dois temperamentos, o melancólico e retraído de Bishop, que se sentia oprimida pelo ambiente competitivo de Nova Iorque e sempre se sentira como uma visita, por ter passado a infância como enjeitada em casas de parentes; e o assertivo e às vezes furioso de Carlota, acostumada a se impor no meio misógino e culturalmente acanhado do Brasil da época.

Baseado em depoimentos e cartas das protagonistas e de outras pessoas do convívio íntimo do casal, o livro conta em detalhes até pequenos episódios da vida delas em comum, seja no sítio de Samambaia, em Petrópolis, seja em Ouro Preto, onde Bishop chegou a querer estabelecer residência, ou no Rio de Janeiro, onde Carlota conduziu seu projeto mais ambicioso. Com idas e vindas no tempo – o livro foi publicado em 1995 – a narrativa alterna entre as anedotas e os comentários de amigas do círculo íntimo de Lota, numa dos recursos mais questionáveis da biografia: pessoas que ainda eram vivas na época da publicação do livro aparecem com nomes fictícios, mas a sua única função narrativa é servir de veículo para os comentários maldosos que circulavam na época, principalmente sobre Bishop.

Enriquecido com fotos e reproduções de bilhetes e desenhos – de um deles, do amigo Carlos Leão, sai o título do livro – em comparação com outros livros sobre o tema (há diversas biografias de Bishop, e um livro sobre homoafetividade feminina no Brasil que usa o casal como referência), é mais uma biografia de Carlota, mulher admirável que o Brasil esqueceu sob o ponto de vista daquela que foi seu grande amor.

*Imagem de exibição: cena do filme Flores Raras

Sylvia Tamie Anan

Sylvia Tamie Anan tem mestrado em Teoria Literária, é professora e tradutora. Entre outros, já escreveu o blog O que diria Bandeira - http://oquediriabandeira.wordpress.com

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