Entrevista: Luisa Geisler

Por: Leia Mulheres | Em: 7 / Fevereiro / 2018

A escritora Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Já tem três livros publicados e foi duas vezes vencedora do Prêmio SESC de Literatura, além de ter sido duas vezes finalista do Jabuti. O Leia Mulheres bateu um papo com ela e você pode conferir abaixo o resultado dessa conversa.

Como você começou a escrever?

Comecei a escrever lendo. Desde muito pequena era uma leitora voraz e interessada, ia atrás de livros, até chegar ao ponto de querer participar desse processo. Aí comecei a escrever coisas por mim, escrevi fanfics e tal, até entrar numa oficina de criação literária e começar a escrever como uma prática de fato.

Seus dois primeiros livros Contos de Mentira e Quiçá foram publicados quando você ganhou o prêmio SESC. Como foi o processo desse concurso?

O processo do Prêmio SESC de Literatura é basicamente o mesmo: você manda um livro pronto com um pseudônimo. Se você ganhar, divulgam o seu nome e o livro é publicado pela Record, que é uma casa editorial grande e tudo o mais. O processo do concurso sempre me agradou muito porque eu não precisava me divulgar se não ganhasse. Eu não teria me tornado escritora se não fosse o Prêmio SESC de Literatura, porque não teria ido atrás de um editor, batido em porta alguma. Eu só mandei o livro, ele foi lido e, pelo seu conteúdo, ele ganhou. O Prêmio SESC é a melhor forma de publicação para tímidos (eu).

Você usou os pseudônimos Brian McElfatrick e Caio Vento no prêmio SESC. Por quê? Como foi a reação das pessoas quando seu nome veio à tona?

Usei os pseudônimos masculinos porque achava que os livros iam ser lidos como “neutros”. Quando uma mulher escreve um livro, é uma mulher escritora escrevendo um livro.  Quando um homem escreve, é só um escritor. Então não queria que houvesse a questão de gênero interferindo na avaliação. Hoje, penso que até teria usado só uma letra, tipo “C.”, pra tirar totalmente o peso do gênero. Mas, bom, agora já foi.

A Marina Colasanti, que foi jurada no prêmio de 2011, quando me conheceu em pessoa (e eu me apresentei, ela ainda não me conhecia), me olhou e disse: “Menina, eu achava que você era um homem gay roteirista de quarenta anos!” Não tive a oportunidade de perguntar pra outros jurados (e não tive mais respostas tão espontâneas), então não sei se foi surpreendente para eles.

Em 2012 foi também foi incluída na Granta, sendo a autora mais nova já selecionada. Qual o efeito disso na sua carreira de escritora?

É a famosa “honra, porém responsabilidade”. Foi ótimo pra minha carreira, em especial em termos internacionais, mas é algo que ainda pesa. Acho que pior do que ser denominada uma “promessa”, é ser uma “promessa não cumprida”, não é? Enfim. Sigo tentando escrever sem influência, mas é algo que me apavora às vezes.

Depois de Quiçá, você foi para a Alfaguara e lançou Luzes de emergência se acenderão automaticamente. Como foi essa transição de mandar originais para editoras? Esse processo foi fácil para você?

A Record estava numa fase complicada quando acabei saindo. Eu não tinha editor direito, e muitas vezes o contato ficava afastado e difícil. Primeiro, decidi que não queria mais estar com eles, não me sentia assistida, e o Luzes de emergência se acenderão automaticamente estava com eles há algum tempo. Então saí, conversei com a minha agente, pensamos no destino do livro. Foi uma decisão um pouco complicada na época, mas hoje acho que foi acertada. Eu tinha contato com a Alfaguara por conta da Granta, e acabamos falando com o Marcelo Ferroni a respeito do livro. Mandamos, e o resto é literatura. Mas foi uma transição muito leve, muito boa. Marcelo Ferroni é um baita editor, gosto e confio no trabalho dele. Os outros livros, por serem ganhadores do Prêmio SESC, nunca tinham tido editores de fato, essa participação e mudanças tão diretas. Tem sido uma experiência ótima.

Muitas matérias e críticas ressaltam como você é jovem. Você sente uma pressão maior por conta disso?

Sinto, mas tenho a sensação de que isso tem melhorado bastante (risos nervosos). Por já ter três livros publicados, já começam a surgir assuntos além da juventude. Faço muitas brincadeiras com isso, tento mostrar outros escritores jovens. A minha juventude até me causa insegurança, mas mais por ser (ou me sentir) iniciante , não por ser jovem. Se encontro um escritor que gosto, ainda peço autógrafo, por exemplo. Mas não é uma questão de idade, é uma questão de ainda me maravilhar com o mundo da literatura.

Você tem um livro novo a caminho, não? O que pode adiantar sobre ele?

Tenho! Deve sair em junho, pela Alfaguara. É um livro sobre brasileiros na Irlanda e investigação urbana. É um livro sobre procurar pessoas, mas se perder no caminho. Os personagens não são só as pessoas, os imigrantes, suas motivações e o caramba, mas também o ambiente em que estão. É meio que um livro sobre o Brasil, a Irlanda e lugar nenhum. Estou trabalhando nele desde 2015 e confesso que estou bem empolgada com o resultado final.

O que você anda lendo? Alguma recomendação para nossos leitores?

Só muito recentemente comecei a ler Lydia Davis. Ela é sensacional, estou devorando a bibliografia inteira. Não cometam meu erro. Conheçam Lydia Davis pra ontem.

Leia Mulheres

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