Coração e Alma

Por: Michelle Henriques | Em: 5 / fevereiro / 2018

“…enquanto se recompõe, ele agarra o volante com os dentes, morde a borracha, solta um urro ensurdecedor, um urro selvagem e triste, uma coisa insuportável, um grito que ela não quer ouvir, …” pág. 120

Ano retrasado eu li Confissões do Crematório e fiquei obcecada, resenhei aqui no site e falei por todos os cantos que ele tinha sido meu livro preferido de 2016. Caitlin Doughty me fez enxergar a morte de outra forma, e desde então tenho uma ideia totalmente diferente. Ao ler Coração e Alma, foi impossível não pensar nele.

Simon Limbres é um garoto de 20 anos que gosta de surf. Após um acidente de carro ele tem morte cerebral e seu corpo é mantido vivo por aparelhos. Seus pais são avisados e perguntados se permitem que os órgãos de Simon sejam doados. O livro todo se passa nas 24 horas entre o momento do acidente até que seu coração seja transplantado para Claire, uma mulher de 50 anos.

Em cada capítulo conhecemos um pouco de cada personagem desta narrativa, os enfermeiros, médicos, a namorada de Simon e principalmente seus pais. Acompanhamos principalmente a dor deles e a difícil decisão de permitir ou não a doação de seus órgãos. Uma possível leitura desse livro é como se cada capítulo fosse um conto, pois as histórias dos personagens de certa forma possuem um fechamento. Temos uma visão mais profunda de cada personagem, de suas vidas privadas, seus medos, aflições e intimidades, e ao mesmo tempo estão todos interligados a um único acontecimento: a morte de Simon.

Coração e Alma é um livro diferente sobre a morte, ele aborda o luto de uma forma bastante direta. Ele obriga seus personagens a lidarem com a situação de maneira direta, algo que as pessoas não estão acostumadas. Como dito em Confissões do Crematório, nossa sociedade não sabe lidar com a morte sem que haja um distanciamento, uma maneira racional de lidar com a situação.

“Esses dois são pouco mais jovens do que ele, filhos do final dos anos sessenta, vivem em um canto do globo no qual a expectativa de vida já alta não para de aumentar, no qual a morte é escondida dos olhares, apagada dos espaços cotidianos, evacuada para o hospital, onde é deixada a cargo dos profissionais. Será que já viram um cadáver? Já velaram uma avó, retiraram do mar um afogado, cuidaram de um amigo no fim da vida? Será que já viram um morto a não ser num seriado americano, Body of Proof, CSI, Six Feet Under?” pág. 82

A leitura de Coração e Alma não foi fácil, é bastante difícil de engatar com seu tom descritivo e por vezes poético. Essa divisão de personagens por capítulos é um pouco difícil de assimilar, pois ao mesmo tempo que dá vontade de conhecer um pouco mais sobre eles, deixa a sensação de que está faltando algo, como se fosse um corte abrupto.

Quando nos acostumamos com a escrita de Maylis de Kerangal, a leitura se torna mais fluída e somos envolvidos pelo drama da narrativa. Nascida na França em 1967, a autora lançou nove romances e esse é o primeiro publicado no Brasil.

Vale destacar que esse é o primeiro, e até o momento o único, romance escrito por uma mulher publicado pela Rádio Londres. E ele já foi adaptado para o cinema pela diretora Katell Quillévéré.

Michelle Henriques

Michelle Henriques tem 30 anos e é formada em Letras. Louca dos gatos e dos livros, é colunista no blog O Espanador e participa do podcast Feito por Elas.

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