A Sibila

Por: Sylvia Tamie Anan | Em: 19 / fevereiro / 2018

Para Clarice, tudo começou com um sim. Para a escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís, tudo começa com um travessão. A característica mais marcante de seu romance mais conhecido, A Sibila, publicado em 1954, é que a narrativa é composta de uma única fala da narradora, Germana. Sentada na casa temporariamente habitada que fora de sua família, ela está diante de Bernardo – que, a não ser por uma única pergunta, fica mudo até o final do livro – e resolve contar a história de sua tia Quina.

Nas aulas de literatura, aprendemos que há a narração e o sumário narrativo. A narração mostra os eventos de forma expositiva diante do leitor, enquanto o sumário narrativo enumera os fatos de modo mais sucinto. No romance tradicional, o sumário narrativo é usado para contextualizar os personagens antes de partir para narrativa “de verdade”. A Sibila  é um livro que causa estranheza porque, por conta da moldura narrativa (Germana contando a história), o romance é inteiro um sumário narrativo. Isso gera, ainda hoje, discussões sobre seu estilo: seria uma narrativa mais próxima da realidade ou ela refletiria as limitações de uma narradora mulher?

O universo feminino está presente ao longo de toda a história: desde o sofrimento da avó de Germana, mãe de Quina, por causa do marido mulherengo, passando pelo contraste entre as irmãs Justina – que corresponde ao modelo feminino, bonita, delicada, que se casa de acordo com o padrão social aceito – e Joaquina, a protagonista, que é considerada agitada, feia, e além disso tem problemas de saúde na juventude. E finalmente a própria narradora, que representa uma geração já urbana e culta, distante do contexto em que Quina viveu.

Apesar de ser uma mulher que recupera a história de sua família, Germana não é uma narradora condescendente com as mulheres sobre as quais fala e muito menos com a sua protagonista. Na época em que fica doente, ainda jovem, Quina começa a manifestar dons especiais que lhe valem a alcunha de “sibila” – termo que significa vidente ou profetisa – e que lhe conferem notoriedade a ponto de ser aceita em casas de famílias mais bem posicionadas que a sua, incluindo a da Condessa Monteros.

Com esta celebridade, Quina se torna orgulhosa e tagarela, disposta a usar seu dom para causar intrigas e vinganças, e não se casa por se considerar acima dos homens. Ela também despreza todas as outras mulheres, incluindo as da própria família. Num país supersticioso como Portugal, é no mínimo desconfortável a caracterização de uma personagem que possui o dom da cura e da premonição como uma simples humana, com seus defeitos e qualidades.

Com ação compreendida entre os anos 1850 e 1950, cruciais para a história portuguesa, o romance se limita a algumas referências vagas aos acontecimentos da época e muitas vezes o leitor se esquece do contexto em que a história se passa. Também a caracterização da vida da região do Minho peca pelo excesso de personagens, a maioria muito passageira e sem importância para a trama principal. Mas o leitor não deve desanimar: A Sibila é um romance que desafia tanto o neonaturalismo predominante na época quanto a própria forma com que mulheres costumam olhar para outras mulheres.

Sylvia Tamie Anan

Sylvia Tamie Anan tem mestrado em Teoria Literária, é professora e tradutora. Entre outros, já escreveu o blog O que diria Bandeira - http://oquediriabandeira.wordpress.com

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