Oryx e Crake e O Ano do Dilúvio

Por: Sylvia Tamie Anan | Em: 19 / dezembro / 2017

Que a ficção científica foi criada por uma mulher – Mary Shelley, com Frankenstein, ou o Prometeu moderno – já é ponto pacífico na história da literatura. O fato é que ler Frankenstein hoje em dia, com as imagens tanto do médico quanto do monstro estabelecidas pela cultura pop – em particular no cinema –, pode ser uma experiência um pouco frustrante: mais preocupada com o processo psicológico e emocional que leva Victor Frankenstein à sua criação, e antes de tudo com o complexo de Deus que toma conta do cientista, Mary Shelley não descreve muito bem a criatura e muito menos o processo ou os princípios científicos que o norteiam. Sabemos que a autora tinha contato com Luigi Galvani através do grupo de intelectuais liderado por seu pai, mas de resto o leitor não sabe como a experiência funciona.

O que talvez falta avaliar é como o gênero se desenvolveu a partir daí, principalmente no século XX, a partir de modelos como A Fábrica de Robôs, do tcheco Karel Čapek. Ainda que as questões existenciais e políticas continuassem em pauta, a ficção científica se tornou distópica e sobretudo expositiva, com um grande fascínio pelos neologismos tecnológicos e longas explicações sobre como a história da humanidade deu errado.

Nesse sentido, Margaret Atwood é uma das autoras mais instigantes da ficção científica de cunho distópico. Mais popular este anos desde que seu romance de 1985, O conto da aia, ganhou uma (questionável) adaptação para série televisiva, Atwood se dedicou mais recentemente a uma trilogia, formada por Oryx e Crake (2003), O ano do dilúvio (2009) e MaddAddam, (em português, DoidAdão, 2013, ainda sem tradução para o português), agora conhecida como “trilogia do DoidAdão”, um personagem que é mencionado uma vez no primeiro livro, torna-se secundário em O Ano do dilúvio e protagonista no último volume.

No ano 2000, cientistas canadenses anunciaram a inserção de genes de aranha em cabras, com o objetivo de que o leite delas resultasse num tecido de alta resistência. Não deu certo – e as pobres cabrinhas, pode procurar no Google, hoje vivem num museu em Ottawa –, mas este foi o ponto de partida para Atwood criar o mundo sombrio onde vivem os filhos de Oryx e de Crake. Nos livros, as cabraranhas são mencionadas como um fato histórico. O primeiro romance é narrado por alguém conhecido como Homem das Neves, um título irônico, uma vez que não há mais inverno. (Talvez, para um canadense, isso seja mais uma utopia.)

Como em O conto da aia, há um “antes” e um “agora”, mas aqui é difícil para o leitor decidir qual dos dois é de fato a distopia: se o “antes”, um mundo cyberpunk dominado por corporações, em que os humanos dividem espaço com animais híbridos – guaxitacas, lobocães, porcos que voam – e o sistema escolar só existe para produzir mais cientistas que produzam mais aberrações; ou o “agora”, o mundo deserto habitado apenas pelos “filhos de Oryx” e os “filhos de Crake”.

Filha de um entomologista e de uma nutricionista, Atwood parece fascinada pelos detalhes que perfazem o cotidiano dos seus personagens, pela artificialidade do mundo em que eles vivem, mas não se perde neles. Suas personagens não perdem tempo explicando umas para as outras detalhes básicos do cotidiano, do mesmo jeito que eu não preciso explicar para você nesta resenha como a internet funciona. Mas, principalmente, “o que aconteceu” para a humanidade ter chegado naquele ponto é o que menos importa: importa entender como os personagens, e talvez nós, continuam seguindo em frente num mundo sem esperança.

Sylvia Tamie Anan

Sylvia Tamie Anan tem mestrado em Teoria Literária, é professora e tradutora. Entre outros, já escreveu o blog O que diria Bandeira – http://oquediriabandeira.wordpress.com

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