Fome – Uma autobiografia do (meu) corpo

Por: Fabrina Martinez | Em: 1 / dezembro / 2017

O que você tem que saber é que minha vida é dividida em dois, repartida de forma não muito caprichosa. Há o antes e o depois. Antes de engordar. Depois de engordar. Antes de ser estuprada. Depois de ser estuprada”. Esse é o quinto capítulo de Fome – Uma autobiografia do (meu) corpo de Roxane Gay. São apenas 58 palavras que apresentam as linhas de força do livro. Num primeiro momento, também poderíamos achar que falam apenas sobre Roxane, mas esse trecho fala mais sobre o mundo e como ele reage à violência a que estamos exposta e ao nosso corpo gordo. A autora confessa ter achado que seria fácil escrever esse livro. Bem. O que vocês precisam saber sobre mim é que eu sou gorda e que achei que seria fácil resenhar esse livro.

Fome não é sobre o antes e depois que o mundo espera e exige de pessoas gordas. Não tem emagrecimento, redenção, tampouco jornada de autodescoberta, amor próprio e body positive. Tampouco é sobre compulsão alimentar. É sobre isso também, mas um também superficial. O livro é a história sobre as várias formas de violar uma mulher e fazer com que ela se sinta culpada por coisas que ela sequer sabia que podiam existir. Enquanto criança, ela não sabia o que era um estupro coletivo mas sabia que a culpa era sua. Roxane é uma mulher negra, gorda, bissexual, escritora, professora, ativista e má feminista. “Eu gostaria de ter sabido que minha violação não foi culpa minha” (Capítulo 06).

Nessa resenha vou repetir o nome de Roxane à exaustão. Se existe semelhança mais pontual entre o corpo violentado e o corpo gordo é a desumanização. Somos as gordas, as vítimas ou as sobreviventes, por exemplo. Cada uma delas palavras tem seu lugar e sua importância, não nego. O ponto é que precisamos nos distanciar das estatísticas para entender que mulheres gordas são pessoas que precisam ter sua normalidade, acessibilidade, cidadania e dignidade respeitadas. Falar o nome Roxane é lembrar que cada número ou silêncio tem origem e que essa origem é uma pessoa.

Roxane foi vítima de um estupro coletivo aos 12 anos. A violência transformou aquela tarde banal em um ponto de referência que, como ela conta, determinou todos os aspectos de sua vida. Roxane gostava de um menino e foi passar um tempo com ele e os amigos. Ela queria que ele a notasse. Ele, por saber que podia, foi o primeiro a estuprá-la. Depois dele, veio outro e outro e outro. Ela volta pra casa empurrando a bicicleta pela rua de sua casa, sozinha e em silêncio. Roxane não conta aos pais o que houve e só depois, muito depois, sabemos como eles tem contato com essa violência. Mas depois disso, ela começa a engordar propositalmente. Sua família enxerga que esse é o problema. Em festas familiares existem dois pontos centrais: a comida para celebrar e o corpo gordo de Roxane para emagrecer.

O livro não é sobre estar dois, cinco, 10, 20 ou 40kg acima do peso, seja lá que peso for esse. É sobre estar 100, 150kg além dessa marca não especificada. Não é sobre ter um dobrinha na barriga, é sobre ter a sua existência negada em cada aspecto. É não ter acessibilidade ou dignidade. É sobre ser a gorda do rolê, de qualquer rolê. Precisamos falar de números, me acompanhe. Logo nos primeiros capítulos, vemos Roxane e seu pai recebendo orientações para uma cirurgia bariátrica. É numa clínica e a orientação, em grupo. Roxane pesava mais de 260kg na época. Ela odeia isso. Em nenhum momento ela esconde o ódio que sente do próprio corpo. Mas sabe o que Roxane também não esconde? Que esse ódio não é natural, ele foi internalizado. Na sala, havia pessoas mais gordas que ela, pessoas mais magras que ela e um casal. Ela conta que a mulher fazia inúmeras perguntas sobre a cirurgia bariátrica sob o sorriso do seu marido. Ela não teria que emagrecer mais que 20kg e obviamente estava lá para atender aos desejos daquele homem. É esse olhar que internalizamos. O nosso ódio vem da certeza que quanto menor e mais dócil o nosso corpo, maior são as chances de sermos vistas e tratadas como pessoas.

Numa sociedade em que toda mulher, por mais magra que seja, está sempre três quilos acima do seu peso imaginário ideal (pleonasmo vicioso proposital) falar sobre pesar mais que três dígitos é um afronto. Precisamos falar de números para separar pressão estética de gordofobia. Toda mulher sofre pressão estética. Mas apenas mulheres gordas DE FATO sofrem gordofobia. O que é ser gorda? É não ter que perguntar se você está gorda. Roxane apresenta uma conta muito precisa: quanto maior o teu corpo, menor o teu mundo. Simples assim. O livro fala com pessoas gordas que precisam do extensor do cinto de segurança do avião, que tem marcas e machucados no corpo por ter que caber em cadeiras pequenas, é sobre ficar doente não por ser gordo mas por tentar emagrecer a qualquer custo e não receber tratamento médico digno. O livro é sobre todas aquelas coisas que falamos entre nós com raiva e dor.

À primeira vista ele pode ser bem incômodo, há a expectativa por aquele momento em que ela para na frente do espelho, observa suas curvas e se aceita. Isso não acontece. Ela revisita inúmeros pontos da sua vida sob a perspectiva de um corpo gordo e, em alguns momentos, de um corpo violado.  Roxane rebate as críticas sobre ser gordofóbica e aceita com certa resistência que seu discurso é carregado de auto-aversão. E é. Mas também é carregado de dor. Em determinados momentos, o que ela conta é tão dolorido que sua escrita é quase mecânica. Assim como a leitura. Como falar (e ler) sem dor sobre seu corpo ser a representação do pior que pode acontecer a uma pessoa? Como seguir adiante com isso?

Como ativista do movimento antigordofobia foi péssimo ver que ela usa palavras como obesidade ou se descreve como obesa mórbida. Nós sabemos que essas palavras existem para nos patologizar e é esse discurso que Roxane adota em alguns momentos. Quando ela fala de exercícios, por exemplo, ele confunde ser sedentária (que é algo que acontece em qualquer tamanho) com ser gorda. Isso é ruim? É. Assim como quando ela fala sobre a diferença entre SER e ESTAR doente. As pessoas pressupõe que um corpo gordo é um corpo doente. Quando ela de fato fica doente, ela não fala sobre ser gorda. Mas sobre a solidão. Quanto maior o seu corpo, mais sozinha você tende a ser.

Por mais dolorido ou controverso que seja, o livro é importante para que possamos entender como o discurso de ódio ao corpo gordo é internalizado e quais os resultados disso nas pessoas. Não estou falando apenas de dor emocional, mas de dor física mesmo. Daquele momento em que a gente acha normal chegar em casa e curar os hematomas físicos de um mundo que nos rejeita. Em muitos momentos, me reconheci ali. #metoo. Tanto que levei o texto para minhas sessões de análise e junto com a minha terapeuta entender o impacto dele em mim. “A gordura criou um corpo novo, um corpo que me envergonhava, mas que fazia com que eu me sentisse segura e, mais que qualquer coisa, eu precisava me sentir segura. Eu precisava me sentir como uma fortaleza, impenetrável. Eu não queria que nada ou ninguém me tocasse”. (Capítulo 6)

Esse trecho me incomodou bastante. Minha primeira reação foi pensar “como uma ativista feminista pode falar isso?”. Errado. O verdadeiro incômodo é notar que a repulsa ao corpo gordo é algo tão cristalizado na nossa sociedade que uma criança de 12 anos consegue perceber isso e usar essa repulsa como defesa. A luta antigordofobia é uma pauta feminista ainda que muitas feministas achem que ser gorda é o pior que pode lhes acontecer, ainda que elas façam piadas, ainda que elas considerem descontrole. Página a página, Roxane nos mostra que o discurso “meu corpo minhas regras” só é válido até o 48. A partir do 50, toda violência será relativizada.

Queria que essa resenha tivesse um final incrível e que inspirasse a leitura do livro. Desde seu lançamento, no começo de novembro, eu o li duas vezes. De alguma forma, o texto de Roxane Gay joga pro grande público o que as militantes tem falado na internet, há tanto tempo. Pessoas gordas são pessoas, ser gordo é normal e o que nos adoece é o tratamento que recebemos. Não é algo que a gente não tenha lido ou tenha vivido, no caso das mulheres gordas. Ao abrir e fechar o livro, percebemos que a aversão ao corpo gordo é global e que essa repulsa é uma forma eficiente de vigiar e punir. Também é uma forma de controle de discurso. Ao falarmos do tamanho do corpo não focamos em questões relevantes como a desumanização de pessoas gordas e, sobretudo, porque é tão difícil ocupar espaços mesmo sabendo que nós não somos intrusas.

 

Fabrina Martinez

Fabrina Martinez é feminista, ativista, jornalista e leitora. Escreve em muitas firmas e na internet. Mantém o Gorda Esporte Clube (https://www.instagram.com/gordaesporteclube/) que incentiva a presença de pessoas gordas em ambientes esportivos. Tem uma coleção questionável de tênis e livros.

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