Rita Lee – Uma Autobiografia

Por: Mariana Zambon Braga | Em: 7 / novembro / 2017

“Levava uma vida sossegada
Gostava de sombra e água fresca
Meu Deus quanto tempo eu passei
Sem saber
Foi quando meu pai me disse filha
Você é a ovelha negra da família
Agora é hora de você assumir
E sumir”

Ovelha Negra, 1975

Roqueira, beatlemaníaca, pioneira, visionária e cheia de atitude. Esses são apenas alguns dos adjetivos que podemos atribuir a essa mulher tão versátil e carismática, ícone da música brasileira. A ovelha negra de estimação do Brasil.

Na vida de Rita Lee, o sossego e a tranquilidade nunca foram características muito presentes. Ao longo dos anos, a imagem de ovelha negra e de rebeldia se consolidou a cada polêmica alimentada pela mídia a respeito de sua carreira ou de sua vida pessoal. Rita se transformou em figura controversa, agitou o mundo da música com suas letras provocantes (driblando a censura com maestria) e está entre os artistas que mais vendem discos na história do Brasil.

Mas, apesar da trajetória frenética, Rita parece ser uma mulher tranquila em busca de paz de espírito. Como se a idade trouxesse as revelações e a calmaria que ela tanto perseguiu ao longo dos seus quase 70 anos.

“Estranho ter sido o que fui sendo eu o que sou hoje. Parece que sempre tive a idade que tenho agora”.

Em sua autobiografia, Rita nos presenteia com uma visão intimista dos acontecimentos mais marcantes de sua história, em linguagem fluida e bem-humorada. Como se estivesse conversando com o leitor, Rita conta causos da infância no Casarão da família, na Vila Mariana, em São Paulo, passando pelos anos lisérgicos com os Mutantes até sua carreira solo.

Dos seus anos de mutante, Rita pinta um quadro pincelado de ressentimento em relação aos irmãos Baptista – da parte deles, e da parte dela. A conturbada relação profissional e de amizade entre eles é retratada de forma crua e cheia de alfinetadas.

Além de passagens de sua vida artística e dos acontecimentos divertidos, Rita também apresenta relatos muito pessoais e permeados por emoções: o estupro sofrido na infância, a relação com as drogas, as perdas de seus entes queridos, o amor intenso e a família que construiu com seu parceiro de longa data, Roberto de Carvalho, o “Rob”.

O livro também inclui explicações sobre as músicas e os discos compostos e lançados por Rita, com comentários acerca da origem das letras e dos arranjos musicais. Para os fãs, é uma ótima oportunidade de conhecer a fundo a mente sarcástica e lúdica da cantora. Para o público em geral, é um passeio pela cultura e pela música popular brasileira.

Embora se trate de uma autobiografia, este é um livro recheado de temas para debate, como sexualidade, repressão, ditadura, família, censura, machismo no rock e protagonismo feminino na música.

Para mim, foi uma leitura que trouxe muitas surpresas, como saber da amizade entre Rita Lee e Elis Regina e da competição que havia entre as cantoras na década de 70.  Outra característica marcante dos relatos de Rita é a forma como ela se refere a si mesma com excessiva modéstia, em momentos até de forma autodepreciativa – o que me levou a refletir sobre a síndrome da impostora, que sempre assombra as mulheres em suas carreiras, por mais que sejam muito bem-sucedidas.

Seja como for, Rita Lee é um dos grandes nomes da música e da história do Brasil. Uma mulher que resiste e continua ativa, criando, “sendo uma septuagenária bem-vivida, bem-experimentada, bem-amada, careta, feliz e… bonitinha”, que “ (…) talvez ainda faça um monte de gente feliz”.

Mariana Zambon Braga

Tradutora e escritora, criadora do site Mil Palavras por Dia, colunista da revista Fale com Elas e do blog Café das Minervas.

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