Rebecca – a mulher inesquecível de Daphne du Maurier

Por: Sylvia Tamie Anan | Em: 17 / novembro / 2017

É sempre curioso pensar em um filme de Hitchcock como uma adaptação literária, que associamos de forma tão comum com oportunismo e mesmo falta de imaginação. O fato é que, de praxe, seus filmes acabaram ofuscando os originais, e chega a ser difícil pensar em alguém que se dê ao trabalho de comparar Psicose ou Um corpo que cai com as obras originais.

A escritora britânica Daphne du Maurier (1907- 1989) inspirou três filmes de Hitchcock: Jamaica Inn (1939), Rebecca (1940) e Os Pássaros (1963). Trata-se do primeiro filme da fase americana de Hitchcock, o que não deixa de ser curioso porque não tem história mais britânica do que Rebecca: um antigo castelo à beira-mar, um casamento entre pessoas socialmente desniveladas, uma governanta carrancuda. Em preto-e-branco, o filme explora a virada de romance psicológico para história de suspense que se encontra no romance original, mas tem um defeito típico das adaptações literárias da época: como o livro fizera muito sucesso, a direção parece partir do princípio que todos os espectadores já conheciam a história e pula por cima de muitos detalhes para chegar à conclusão.

Rebecca, o livro, está alinhado com a melhor tradição do romance gótico inglês. A narradora – que, de modo muito significativo, não tem nome – trabalha como dama de companhia de uma velha chata e inconveniente quando conhece este nobre inglês, recentemente viúvo, e os dois logo se apaixonam e se casam. O leitor acompanha os acontecimentos da perspectiva desta narradora, por isso não temos nenhum acesso aos pensamentos e sentimentos do marido, mesmo porque a narradora é completamente incapaz de ler as reações alheias. O que se apresenta, portanto, é um casal típico de romance de Hollywood: o homem é rico e gostosão, enquanto a mulher não é nada – nem bonita, nem elegante, nem inteligente, nem espirituosa – e não tem nada, nem um nome próprio.

Ao chegarem em Manderlay, propriedade da família do marido, a narradora é atormentada pela onipresença da primeira esposa, Rebecca, descrita por todos como uma mulher perfeita, morta num acidente trágico que é uma consequência da própria perfeição. Na verdade, ela representa o ideal inalcançável de esposa perfeita, antigamente representada pela Virgem Maria, e a projeção das angústias da narradora em relação ao papel de esposa. No limite, o marido tem a sorte de trocar uma esposa bela e admirada, mas fútil e de mau caráter por uma mulher de comportamento mais recolhido e que ele pudesse moldar, em vez de moldá-lo.

Há a polêmica em torno da acusação de plágio contra du Maurier pela escritora brasileira Carolina Nabuco, autora de A Sucessora, publicado em 1934. Além da questão circunstancial – Daphne avaliava originais na editora novaiorquina para a qual Nabuco mandou a versão em inglês do seu romance, e publicou Rebecca quatro anos mais tarde –, a leitura dos dois não deixa dúvidas em relação aos detalhes que são diretamente tirados do original brasileiro e os elementos que foram deslocados – a importância da casa, personagens como a irmã do marido e a relação com o retrato. Mas o próprio A Sucessora tira inspiração de Encarnação, de José de Alencar, e nenhum dos três romances supera a mera representação da imagem de esposa ideal.

Todos os livros de Daphne du Maurier, inclusive aqueles que inspiraram Hitchcock, se encontram nas livrarias em português. A Sucessora, em compensação, encontra-se esgotado.

Sylvia Tamie Anan

Sylvia Tamie Anan tem mestrado em Teoria Literária, é professora e tradutora. Entre outros, já escreveu o blog O que diria Bandeira - http://oquediriabandeira.wordpress.com

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