Uma vida pequena

Por: Juliana Gomes | Em: 6 / outubro / 2017

Depois de quase um ano da leitura de Uma vida pequena de Hanya Yanagihara resolvi escrever sobre a experiência de ter me tornado amiga dos personagens Jude, Willem, JB e Malcolm. Mas antes, gostaria de citar as ótimas resenhas dos meus companheiros de leitura desse calhamaço: Eder na Escotilha e Gabriela Ventura em sua newsletter.

Uma vida pequena retrata a vida de quatro jovens, graduados na mesma universidade de Nova Inglaterra, que estabeleceram suas vidas em Nova Iorque, após o término da faculdade. Esses amigos possuem tipos distintos e  estão ligados um ao outro: Willem Ragnarsson, o bonitão da turma é de uma fazenda do Wyoming – aspirante a ator mas trabalha como garçom em um restaurante hipster; Malcolm Irvine, de família rica do Upper East Side, arquiteto; Jean-Baptiste (JB) Marion, filho de imigrantes haitianos, recepcionista no escritório de uma revista de arte do centro da cidade – vem de uma família rica; e Jude St. Francis, um advogado e matemático, de origem desconhecida – o misterioso do grupo.

As primeiras páginas contam a rotina dos personagens após a universidade: festas, a saga da locação de apartamentos e encontros.  O livro me parecia um amigo, ainda mais nesta frase de JB, que imaginei sair da boca de vários amigos: “Via, em vez disso, os nomes de gente sem talento e de artistas hypados, pessoas a quem se deviam favores ou pessoas que conheciam pessoas a quem se deviam favores.” pág. 16

No entanto, torna-se evidente que a autora Hanya Yanagihara nos guarda surpresas nem tão agradáveis no decorrer do livro, em suas mais de setecentas páginas, sugerindo ambições maiores do que um conto de carreiras bem sucedidas. Há também ausências curiosas no texto: 11 de setembro não é citado, nem nomes de prefeito, presidente ou quaisquer figuras culturais reconhecíveis, que possam enquadrar a narrativa em um determinado ano. O efeito disso é colocar o romance em um dia presente eterno, no qual as vidas emocionais dos personagens estão no primeiro plano e o momento político e cultural é vago.

O sinal de alerta para a desgraça que viria a seguir em Uma vida pequena acontece quando o foco do texto passa a ser o passado misterioso e traumático de Jude. À medida que as páginas se voltam, o conjunto retrocede e Jude vem à tona. E com Jude em seu centro, Uma vida pequena torna-se uma novela surpreendentemente inovadora que usa as armadilhas para entregar uma meditação inquietante sobre o abuso sexual, o sofrimento e as dificuldades de recuperação. E, enfraquecendo nossas expectativas uma vez, Yanagihara faz isso de novo, recusando-nos as consolações que esperamos de histórias que tomam um giro tão escuro. Não há desculpas nem prêmio de consolação, Hanya deixa o leitor desarmado e desesperançoso.

As representações gráficas de abuso e sofrimento físico que se encontram em Uma vida pequena são raras na ficção contemporânea. Os romances que lidam com essas questões geralmente desaparecem quando a violência começa. Neste mundo sem Deus, a amizade é o único consolo disponível para qualquer um de nós. É claro que o ateísmo não é incomum na literatura contemporânea; em Uma vida pequena, a dor não é uma mensagem de Deus, ou um caminho para a iluminação, e ainda assim Yanagihara o escuta de qualquer maneira.

Hanya foi muito criticada pela violência gratuita em seu livro e me pergunto se alguém a questionaria se fosse um homem, como Cormac McCarthy ou Chuck Palahniuk.

Juliana Gomes

Livreira, consultora comercial e marketing em livrarias e editoras. Exercita sua veia digital na Kontakt.

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