Os 27 crushes de Molly

Por: Fernanda Rossin | Em: 23 / outubro / 2017

Nas férias de verão antes de começar o último ano do ensino médio, Molly acumulava vinte e seis crushes e nenhum namorado. É a partir daí que começamos a acompanhar a jornada da protagonista do livro de Becky Albertalli, e como não poderia deixar de ser, é um caminho com os altos e baixos adolescentes de alguém aprendendo a lidar com outras pessoas, consigo mesma e com as coisas que sente.

Molly é uma garota gorda que não odeia seu corpo, mas odeia como as outras pessoas o julgam. Ela tem uma irmã gêmea de quem é muito próxima, e vê na irmã seu oposto em muitas coisas: Cassie é magra, loira e já beijou muitas garotas sem parecer ter dificuldade alguma nisso. Quando Cassie conhece Mina, descrita por sua irmã como a garota dos sonhos, Molly começa a perceber que a relação entre elas tende a ser bem diferente com a vida adulta que se aproxima e, de repente, parecem ter cada vez menos afinidade.

Ao mesmo tempo, ela conhece Will, amigo de Mina que é o candidato perfeito para ser o crush número vinte e sete. Definido como ruivo e hipster (usado aqui no melhor sentido da palavra), Will parece interessado em aproximar-se de Molly, que fica nervosa em arriscar-se ao dar o primeiro passo.

E ela nem tem certeza sobre o que sente por Will, porque logo conhece seu novo colega de trabalho, Reid, de quem vai se aproximando cada vez mais e desenvolvendo sentimentos confusos. Mas Reid é um cara nerd que usa tênis de qualidade estética duvidosa, o tipo de pessoa que Molly não pensaria como um crush.

“Só a palavra ‘Netflix’ já consegue me tranquilizar. Netflix quer dizer não ter que encolher a barriga nem pensar em alguma coisa inteligente e engraçadinha para dizer. Significa uma noite inteira sem pensar no que as pessoas acham de você. Nada de álcool e nada de flerte, nada de confusão. Só órgãos calmos e em seus devidos lugares.” Pg. 135

Os 27 crushes de Molly é uma daquelas histórias que eu queria muito que existissem quando era adolescente passando por tantas coisas parecidas com a personagem, e sentindo que ninguém poderia entender o que eu sentia. Algumas coisas me lembraram bastante My mad fat diary (outra história maravilhosa), inclusive pela capa – o desenho de Molly é bem parecido com Rae, o que me fez ter vontade de comprar o livro.

Albertalli narra muito bem a jornada de Molly, e o que mais gostei é que apesar de ter um foco grande no romance (que me fez soltar vários gritinhos mentais, não nego), ela também aborda tanto outros aspectos que são complicados de lidar nessa fase da vida, como relações familiares que estão mudando, a relação com o corpo, pressões sociais, sexualidade e transtornos mentais. Tudo tem seu espaço e resolução na história, sem parecer que foi incluso para bater alguma “cota” de temas atuais polêmicos ou para ser politicamente correto.

Foi uma ótima surpresa. Adoro livros infanto-juvenis, mas nem sempre eles conseguem trazer tanta profundidade como esse. Mesmo para pessoas adultas, há espaço para identificação, especialmente se na adolescência você se sentia o patinho feio como a Molly ou era a amiga gorda do seu grupo. Ele traz uma sensação muito gostosa de que você pode gostar de si mesma, ser feliz e de que as coisas melhoram com o tempo, mesmo que no momento tudo pareça fadado ao fracasso.

E também reforça a importância das relações mais diversas. A gente vê a Molly se relacionando com a irmã, com as mães e a avó, com as amigas. Não passa a mensagem tóxica de que somente um relacionamento romântico vai te fazer feliz e que suas outras relações devem ficar em segundo plano.

Depois de começar, é difícil deixar o livro de lado. Eu tirei um domingo tranquilo para a leitura e terminei no mesmo dia, de tão gostoso que era ver o desenvolvimento da história e da Molly como personagem. Recomendo bastante!

Eu pego um pote de conserva e tento não sorrir, porque tenho que admitir: é uma coisa bem incrível não se importar de verdade com o que as pessoas pensam de você. Muita gente diz que não se importa. Ou age como se não se importasse. Mas acho que a maioria se importa muito. Eu sei que eu me importo.” Pg. 175

Fernanda Rossin

Fernanda Rossin tem 25 anos, é formada em Relações Internacionais e estuda feminismo no âmbito internacional. Adora gatos, histórias de todos os tipos e aprender coisas estranhas.

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