As coisas que perdemos no fogo

Por: Fernanda Rossin | Em: 9 / outubro / 2017

As coisas que perdemos no fogo é uma coletânea de contos da escritora e jornalista argentina Mariana Enriquez. Ao longo de doze histórias, conhecemos personagens imperfeitas que vivem situações transitando entre tensas e desesperadoras, onde o lado mais obscuro da Argentina atua como uma personagem por si só. A maioria das histórias é ambientada nos bairros periféricos de Buenos Aires, já longe do glamour de décadas passadas, enfrentando uma realidade de pobreza e alta criminalidade.

A maioria dos contos, exceto um, são protagonizados e narrados por mulheres. Enriquez parte de situações rotineiras, que ao se desenvolverem apresentam traços de horror e proximidade com o realismo mágico.

Mesmo com temáticas fantasiosas, as histórias sempre são carregadas por problemas reais enfrentados na sociedade. Além das desigualdades econômicas, a autora trata também sobre violência doméstica, transtornos alimentares, doenças mentais e deficiências físicas de maneira extremamente sensível.

“Uma tarde, enquanto brincávamos com o incenso, colocamos um disco, Ummagumma, do Pink Floyd, e sentimos que algo nos perseguia pela casa, um touro talvez, ou um porco selvagem com presas e chifres, trombamos nas coisas, nos machucamos. Foi como estar no furgão outra vez, mas dentro de um pesadelo.” – pg. 56

Gostei muito do livro. Os contos foram me envolvendo de modo que, tendo tempo livre suficiente, terminei a leitura de um dia para o outro. Recomendo bastante para quem gosta de histórias com elementos de realismo mágico, além de ganhar pontos por suas personagens femininas e a maneira crua com que trata temas importantes.

A escrita dele é simples, direta, sem muitos rodeios, o que achei uma escolha acertada por conta das temáticas indigestas com as quais Enriquez lida. Um detalhe interessante é que ela repete o nome de personagens entre um conto e outro – não sei se de forma intencional, querendo de alguma forma conectar as histórias, ou sem motivo especial. Mas foi curioso perceber essa repetição.

O único ponto crítico que encontrei foi que alguns contos não conseguem corresponder ao momentum que são construídos. Todos começam muito bem e vão desenvolvendo um suspense envolvente, mas algumas histórias não conseguem carregar esse suspense até o final e terminam de maneira um pouco decepcionante – ou porque o final foi rápido demais, como em “Nada de carne sobre nós”, ou porque não conseguiu carregar até o fim a carga emocional do restante do conto, como em “As coisas que perdemos no fogo”.

Em sua maioria, são histórias muito bem escritas do início ao fim. Foi uma feliz surpresa para mim, que não tinha ouvido falar do livro antes e conheço muito pouco das escritoras latino-americanas, e fiquei curiosa para conhecer mais trabalhos da autora.

“A favela, qualquer favela, inclusive aquela, na qual se aventuravam apenas os assistentes sociais mais idealistas – ou mais ingênuos -, aquela favela abandonada pelo Estado e favorita de delinquentes que precisavam se esconder, até mesmo aquele lugar perigoso e evitado, tinha muitos e agradáveis sons. Sempre fora assim. As diferentes músicas confundidas: a lenta e sensual cumbia da periferia, aquela mistura estridente de reggae com ritmo caribenho; a sempre presente cumbia de Santa Fé, com suas letras românticas e às vezes violentas; as motos com os canos de escapamento cortados para produzir rugidos ao arrancar; as pessoas que vinham e compravam e caminhavam e falavam.” – pg. 160

Fernanda Rossin

Fernanda Rossin tem 25 anos, é formada em Relações Internacionais e estuda feminismo no âmbito internacional. Adora gatos, histórias de todos os tipos e aprender coisas estranhas.

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