A rua amarela

Por: Sylvia Tamie Anan | Em: 3 / outubro / 2017

Descobri Veza Canetti – aliás Venetiana Tauber-Calderon – por puro acaso. Eu estava dedicada a ler  a obra do escritor de língua alemã e origem búlgara, Elias Canetti, e no meio de uma de suas obras autobiográficas eu quis verificar uma data. E no início da página de Elias na Wikipédia estava, quase de passagem, a informação: “casado com a também escritora Veza Canetti”.

A obra de Canetti que eu lia na ocasião era Uma luz no meu ouvido, parte da autobiografia em que Elias narra a sua juventude em Viena e a influência do jornalista e dramaturgo Karl Kraus, autor de um panfleto chamado “O Facho” (de onde Canetti tirou o título). É nas conferências de Kraus que Elias conheceu a futura namorada, e a biografia dedica muitas páginas ao seu relacionamento, à personalidade de Venetiana, a relação dela com o padrasto e o fato de que a mãe de Elias desaprova o casal. Não há uma palavra sobre o fato de que ela escrevia.

Anos depois da morte da esposa, Elias se justificou dizendo que, ao mencionar os escritos engavetados por ela, a estigmatizaria como uma escritora fracassada. O silenciamento é emblemático. Se na minha graduação em Letras Elias Canetti, um judeu sefardita que compôs toda a sua obra em alemão mesmo sem ser sua língua materna, era mencionado como uma mera curiosidade, Veza Canetti nem sequer existia. A rua amarela, seu único livro ainda publicado em vida, saiu no Brasil há 30 anos, enquanto outras obras, como o romance As Tartarugas, ainda aguarda tradução.

Enquanto ainda solteira, Veza morava com a mãe e o padrasto na rua Ferdinando, que exerce um papel central nas memórias de Uma luz no meu ouvido. Mas a rua Ferdinando também era a rua dos comerciantes de couro de Viena, e se transforma na rua Amarela do livro.

No prefácio de A rua amarela, Elias afirma que Veza “tinha interesse pelas naturezas anormais, mas preferia escrever sobre mulheres que pereciam servindo os outros ou em casamentos ruins.” Veza é uma mulher que escreve sobre outras mulheres, e a rua Amarela reflete toda a situação social e econômica de Viena da época: capital de um império espatifado pela Guerra de 1914-18, ainda lidando com toda a diversidade étnica de um governo que, até poucos anos antes, se estendia pelo Leste Europeu.

Para tanto, o olhar de Veza se volta para a realidade do trabalho feminino, que ela nunca viveu mas que observa com destreza, tanto nos abusos sofridos pelas empregadas domésticas quanto na esposa burguesa obrigada a recorrer a expedientes para ocultar a falência do marido. A tal ponto que, ao publicar trechos de A rua amarela no “Jornal dos Trabalhadores”, órgão do partido socialista austríaco, ela adotou o pseudônimo Veza Magd – antiga palavra alemã para “moça” que, no alemão austríaco, usava-se comumente para designar “criada”.

A rua amarela ainda se pode encontrar em bibliotecas e sebos, mas merecia uma reedição. E nos serve como perspectiva de como algumas questões das mulheres continuam idênticas depois de quase um século.

Sylvia Tamie Anan

Sylvia Tamie Anan tem mestrado em Teoria Literária, é professora e tradutora. Entre outros, já escreveu o blog O que diria Bandeira – http://oquediriabandeira.wordpress.com

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