A Hora da Estrela

Por: Michelle Henriques | Em: 26 / outubro / 2017

“Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer?”

No romance A Hora da Estrela, em pouco mais de 80 páginas, Clarice Lispector dá voz a Rodrigo S.M. (alter ego da autora, como nos avisa na dedicatória). É ele quem nos conta a história de Macabéa, nordestina de 19 anos que vive no Rio de Janeiro. Vive é um verbo forte; de acordo com os acontecimentos narrados, podemos considerar que ela apenas existe: “Quanto à moça, ela vive num limbo impessoal, sem alcançar o pior e nem o melhor. Ela somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando. Na verdade — para que mais que isso? O seu viver é ralo. Sim.

Invisível, a protagonista leva uma vida comum como datilógrafa, dividindo um quarto com quatro moças e seu único contato com o mundo é um rádio a pilha. Macabéa desculpa-se por tudo e vive à sombra de sua tia beata que a criou. Tem vergonha do corpo e não sabe reconhecer as próprias sensações. Sua alimentação é pobre — tomar café é uma extravagância. Ela cheira mal, mas suas colegas de quarto não sabem como lhe dizer. Ela também tem um namorado, Olímpico. Eles se reconhecem como semelhantes, ambos nordestinos em um lugar que não é deles e assim forma-se um laço, mas a relação é bastante estranha e distante.

O romance não é linear; enquanto Rodrigo S.M. conta a história de Macabéa, também divaga sobre suas experiências, percepções e questionamentos existenciais: “Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias”.

Esse trecho nos remete novamente à própria Clarice, que em uma rara e melancólica entrevista a Júlio Lerner em 1977, disse que quando não escrevia, estava morta. Quando questionada sobre as diferenças entre escrever para crianças e para adultos, ela disse que para adultos era mais difícil, pois sentia que estava se comunicando com o mais secreto de si mesma.

Uma moça tão pobre que só comia cachorro-quente, mas não é só isso, não. É de uma inocência pisada, de uma miséria anônima”, conta Clarice sobre a protagonista de A Hora da Estrela. Clarice faleceu em 9 de dezembro de 1977 e, atendendo a seu pedido, a TV Cultura só exibiu a entrevista dez meses após seu falecimento.

Em 1985, Suzana Amaral lançou um filme inspirado em A Hora da Estrela. A cineasta definiu Macabéa como um retrato do Brasil na época e disse que escolheu adaptar essa obra específica porque era a única da Clarice que era intimista mas ainda assim retratava problemas sociais do país.

Numa rápida avaliação, A Hora da Estrela pode parecer o livro mais acessível da autora — que já foi considerada “hermética” — mas, mesmo em poucas páginas, há muitas entrelinhas. E podemos traçar uma conexão entre a morte de Macabéa e o fato de ser o último livro de Clarice; há um fechamento de sua obra.

Clarice/Rodrigo S.M. termina o livro constatando: “Macabéa me matou. Ela estava enfim livre de si e de nós. Não vos assusteis, morrer é um instante, passa logo, eu sei porque acabo de morrer com a moça.”

Nos minutos finais da entrevista, Clarice diz: “Parece que eu ganho na releitura, o que é um alívio”. Minha primeira leitura de A Hora da Estrela se deu na época do vestibular, aos 17 anos. Agora, aos 28, tive uma visão completamente diferente da obra. Clarice me ganhou na releitura.

Texto originalmente publicado no site Confeitaria em 2015.

Michelle Henriques

Michelle Henriques tem 30 anos e é formada em Letras. Louca dos gatos e dos livros, é colunista no blog O Espanador e participa do podcast Feito por Elas.

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