Sempre vivemos no castelo

Por: Michelle Henriques | Em: 11 / outubro / 2017

“Eu sempre pensava em putrefação quando me aproximava da fileira de lojas; pensava em uma putrefação preta, ardente e dolorosa que corroía por dentro, ferindo terrivelmente. Era o que eu desejava ao vilarejo.” (págs. 14 e 15)

Shirley Jackson recebeu o carinhoso apelido de Virginia Werewoolf (trocadilho com o nome da escritora Virginia Woolf e a palavra werewolf, que significa lobisomem) graças a seus livros de terror que influenciaram as gerações seguintes. Neil Gaiman e Stephen King já se declararam fãs de Jackson diversas vezes. Felizmente, neste ano, a Suma de Letras trouxe ao Brasil o último romance publicado de Jackson, Sempre vivemos no castelo.

Originalmente publicado em 1962 nos Estados Unidos pela Viking Press, Sempre vivemos no castelo é narrado pela jovem de dezoito anos Mary Katherine “Merricat” Blackwood, que vive em uma casa isolada junto com sua irmã Constance e seu tio Julian, que está preso em uma cadeira de rodas e escreve obsessivamente sobre suas memórias.

Alguns anos antes dos eventos narrados no livro, o resto da família foi envenenada com arsênico sob circunstâncias suspeitas. Os habitantes do vilarejo creem que Constante foi a responsável pelo crime, porém ela foi absolvida no julgamento.  Por esse motivo, os três familiares vivem afastados do vilarejo, e apenas Merricat sai de casa para comprar comida ou passar na biblioteca.

Essa estranha dinâmica parece funcionar para a pequena família, até que um primo, Charles, chega até a casa e interrompe a rotina. Merricat não gosta dele e faz de tudo para que ele se afaste da irmã Constante, que parece cada vez mais encantada com o rapaz.

A narrativa de Shirley Jackson é completamente envolvente e ela constrói o clima de mistério com muita maestria. O horror que a autora descreve não é escancarado, ela não tira conclusões, apenas apresenta os fatos aos leitores. Dando a voz narrativa a uma criança, acompanhamos aquele mundo solitário da mesma, ainda que bastante mágico. Constance faz de tudo para manter um ambiente saudável para todos. O final é bastante surpreendente, pois foge dos clichês que são costumeiros nesse tipo de livro.

Em 1963, o enredo de Sempre vivemos no castelo foi levado ao teatro, mas ficou pouco tempo em cartaz. Ano passado foi anunciada a primeira versão para o cinema, dirigida por Stacie Passon. Seu livro A Assombração da Casa da Colina, publicado em 1959, já possui duas adaptações para o cinema, Desafio do Além de 1963 e A Casa Amaldiçoada, de 1999.

Shirley Jackson publicou seis novelas (quatro delas ainda inéditas no Brasil, e uma deles, A assombração da casa da colina está há anos sem uma nova edição) e diversas coletâneas de contos. Ano passado foi publicada uma nova coleção pela Penguin, chamada Dark Tales. O legado da autora é tão importante que em 2007 foi um criado um prêmio em sua homenagem, o Shirley Jackson Awards, que agracia livros de suspense psicológico, horror e dark fantastic.

A autora veio a falecer em 1965. Ela fumava muito e era considerada acima do peso, por esse motivo, tomava anfetaminas. Jackson também sofria ansiedade, para a qual o médico prescreveu barbitúricos. A mistura desses com as anfetaminas fez com que o coração dela parasse durante o sono.

Para muitos, Shirley Jackson era considerada uma mulher reclusa e solitária, pois não gostava muito de dar entrevistas. Porém, segundo seu marido, ela era uma pessoa bastante carismática, apenas não gostava muito de discorrer sobre seu trabalho, ela achava que ele deveria falar por si só. Anos depois, vemos Elena Ferrante fazendo o mesmo, de maneira ainda mais radical, sem sequer assinar os livros com o próprio nome. E as duas conseguiram provar que uma obra pode ser completa sem informações biográficas de quem a escreve.

Michelle Henriques

Michelle Henriques tem 30 anos e é formada em Letras. Louca dos gatos e dos livros, é colunista no blog O Espanador e participa do podcast Feito por Elas.

Veja outros posts de Michelle Henriques