Um Teto Todo Seu

Por: Mariana Zambon Braga | Em: 4 / setembro / 2017

“Por que os homens bebem vinho e as mulheres, água? Por que um sexo é tão próspero e o outro, tão pobre? Que efeito tem a pobreza sobre a ficção?”

Essas são algumas das perguntas que Um Teto Todo Seu pretende responder. O livro é um ensaio que nasceu a partir de duas palestras dadas pela autora em faculdades inglesas exclusivas para mulheres nos anos 20. Suas falas abordam o tópico “As mulheres e a ficção”.

Mulheres e ficção. Tema complexo até para Virginia Woolf, uma das autoras mais importantes da história da literatura. Virginia nasceu na Inglaterra, em 1882, em uma família da alta sociedade. Escreveu romances, contos, ensaios, fundou e manteve ao lado do marido a editora Hobart Press, que publicava textos experimentais, de amigos e traduções do russo. Em 1941, a autora suicidou-se, deixando uma obra repleta de reflexões acerca da sociedade em que viveu.

Em Um Teto Todo Seu, a autora utiliza um texto de ficção para exemplificar as dificuldades das mulheres de sua época, especialmente no que diz respeito à participação feminina nos meios cultural e literário. A falta de recursos e acesso à educação para mulheres das classes trabalhadoras, a opressão patriarcal, o silenciamento por parte dos homens e o destino certo das mulheres – casar e cuidar da casa – são alguns dos fatores apontados por Virginia como impeditivos para o sucesso da mulher como escritora de ficção.

Dentre os problemas citados pela autora – que incluem a falta de visibilidade feminina nas prateleiras das bibliotecas, a maneira como as personagens são retratadas apenas como pares românticos dos homens e a falta de agência das personagens femininas nas obras de ficção – o mais evidente é a questão da independência financeira da mulher em relação ao homem.

A solução para que a mulher produza ficção de qualidade, segundo Woolf, é ter uma renda estável e um cômodo onde possa escrever sem interrupções. Através do empoderamento financeiro, sem depender dos homens para se sustentar, a mulher pode se libertar também das amarras do pensamento e escrever o que realmente deseja.

“(…) dê-lhe um espaço, um teto todo seu e quinhentas libras por ano, deixe que ela diga o que lhe passa na cabeça e deixe de fora metade do que ela hoje inclui, e ela escreverá um livro melhor algum dia”.

“Não preciso odiar homem nenhum; eles não podem me fazer mal. Não preciso bajular homem nenhum; eles não têm nada para me dar”.

Embora o tema deste ensaio seja o papel da mulher na literatura, e especificamente as que produzem textos de ficção, a autora fala sobre pontos comuns à vida de todas as mulheres. Sobre como a falta de autonomia nos impossibilita a seguir os caminhos que desejamos. Sobre como é urgente derrubar as estruturas de opressão para que possa haver equidade de gênero e igualdade social.

As questões levantadas por Virginia infelizmente ainda estão presentes na nossa sociedade. Sobretudo, no que diz respeito à condição financeira das mulheres e como ela afeta a produção intelectual e a participação nos círculos culturais.

Particularmente, gostei muito da leitura de Um Teto Todo Seu, não só pelo conteúdo riquíssimo, mas também pela maneira como ele é apresentado. Sempre fui encantada pelo estilo de Virginia Woolf, mestra em fundir as cenas do cotidiano com o fluxo de pensamentos e seus questionamentos contundentes. É como se ela quisesse nos levar numa viagem através da realidade das escritoras do século XX e da sua jornada em busca de respostas.

Como mulher, me senti triste por saber que, apesar de todos os avanços e conquistas do feminismo, muitas coisas ainda permanecem iguais – especialmente o julgamento ao qual nós somos submetidas constantemente por parte do sexo masculino. Como escritora, sinto na pele a dificuldade de produzir literatura neste meio tão masculino, nesta sociedade que valoriza tão pouco o trabalho intelectual feminino.

Um Teto Todo Seu é uma leitura que reforça a necessidade de continuar lutando por representatividade e promovendo o trabalho das mulheres que escrevem. É uma profunda reflexão sobre os papéis de gênero, representatividade e liberdade da mulher, que se mantém atual até os dias de hoje.

Mariana Zambon Braga

Tradutora e escritora, criadora do site Mil Palavras por Dia, colunista da revista Fale com Elas e do blog Café das Minervas.

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