O país das mulheres

Por: Michelle Henriques | Em: 3 / agosto / 2017

Na Flip do ano passado, a Nobel Svetlana Aleksiévitch falou como seria o mundo se a política fosse conduzida pelas mulheres. Homens costumam ser mais violentos e iniciam muitas guerras, pela falta de diálogo e negociação. A situação seria muito diferente se mulheres estivessem no comando. É exatamente essa a premissa do livro O país das mulheres, de Gioconda Belli. 

Nascida em 1948, na Nicarágua, Gioconda Belli se formou em Publicidade e Jornalismo na Filadélfia e hoje alterna seu tempo entre a Nicarágua e os Estados Unidos. Desde muito jovem ela esteve envolvida com a política de seu país, inclusive atuando na Frente Sandinista de Libertação Nacional, cujo objetivo era derrubar o ditador Anastasio Somoza Debayle.

Publicado em 2010, O país das mulheres é uma utopia que narra um atentado contra a então presidenta de uma república fictícia chamada Fáguas, chamada Viviana Sansón, durante um comício. Belli intercala capítulos sobre a situação do país enquanto a presidenta está em coma, e outros em que Viviana está em um armazém e resgata objetos de seu passado, que trazem à tona diversas memórias.

Viviana Sansón está a frente de um partido político Partido da Esquerda Erótica (PEE), nome retirado de um poema de Ana María Rodas. Nascido a partir de um clube de leitura, o manifesto do partido tem a ideia de pegar estereótipos dito femininos e levá-los a extremos. Como exemplo, a bandeira do partido mostra pés femininos com as unhas pintadas de vermelho.

No governo do PEE a sociedade é igualitária, e para que isso aconteça, é proposto que os homens fiquem em casa e desempenhem tarefas domésticas. O cuidado com os filhos é ensinado para todos, e todas as tarefas são divididas de forma honesta. Com apenas mulheres desempenhando atividades no governo, há uma revolução inclusive no sistema educacional, os alunos podem escolher as matérias que mais os agrade em determinado estágio dos estudos.

Um grande entrave toma conta do partido quando é necessário decidir quem governaria durante a ausência da presidenta, visto que não há vice-presidente neste governo. Para completar, as eróticas haviam eliminado o posto de vice-presidente e determinado que, em caso de morte ou incapacidade de titular, governaria interinamente um conselho cuja função primordial seria convocar novas eleições no menor tempo possível. A presidenta Viviana havia dito, e com razão, que não se devia chegar ao cargo mais alto da nação por acidente ou herança e que manter uma pessoa qualificada num cargo como a vice-presidência era um desperdício. O problema agora, diante da incerteza sobre a recuperação da presidente, era que não se podiam convocar novas eleições. Não restava outra opção senão esperar. Qualquer semelhança com a realidade brasileira é mera coincidência.

Há também a questão dos estupradores, que são colocados em praça pública, em uma espécie de jaula, com uma letra E estampada na testa. Existe uma alusão à Letra Escarlate, em que mulheres adúlteras precisavam andar com a letra A bordada na roupa durante o século XVII. É questionado se isso não seria violência demais, ainda mais para uma sociedade que prega o amor.

Importantes feministas são citadas ao longo do livro, como Susan Sontag e Virginia Woolf, com seu clássico Um teto todo seu, mas a autora sempre frisa que a teoria não é tão importante para aquelas mulheres, mas sim as ações cotidianas.

A narrativa de Gioconda Belli é bastante ágil, o livro é curto, mas mescla passado e presente, com matérias de jornais, documentos e transcrições de depoimentos de testemunhas do atentado. O país das mulheres é bastante superficial e os temas do feminismo não são amplamente discutidos, mas há diversas referências interessantes e ele traz um fôlego a mais nas leituras. Em tempos em que diversas distopias são publicadas é interessante ler uma utopia feminista.

Michelle Henriques

Michelle Henriques tem 30 anos e é formada em Letras. Louca dos gatos e dos livros, é colunista no blog O Espanador e participa do podcast Feito por Elas.

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