Guerra no coração do cerrado

Por: Taluana Wenceslau | Em: 23 / agosto / 2017

O romance Guerra no coração do cerrado baseia-se na história real de Damiana da Cunha, neta de um dos caciques dos índios panará (mas que eram chamados pelos brancos de cayapós), que acabou servindo de ponte entre os povos originários do território, que atualmente corresponde ao estado de Goiás, e os colonizadores, no final do século XVIII.

A historiografia oficial registra poucos dados sobre a saga de Damiana, mas destaca a autoridade que ela exercia sob sua tribo. O livro de Maria José Silveira busca preencher, com contexto histórico e ficção, as muitas lacunas na vida da panará, por meio de uma bela e comovente narrativa, que visibiliza essa personagem que é pouquíssimo conhecida até mesmo pelas pessoas em Goiás. Ao contar sua história, a obra também evidencia o genocídio indígena que tem marcado a história brasileira com muita violência e brutalidade.

Ainda criança, a jovem indígena foi batizada pelo então governador de Goiás, como estratégia tanto de demonstrar certa cordialidade com as tribos para conseguir fazer com que abandonassem suas terras e se mudassem para os aldeamentos estatais, como para tentar apaziguar as animosidades dos brancos em relação àqueles.

Os indígenas, por sua vez, frente ao extermínio constante de seu povo, estariam buscando sobreviver, ter um tempo de descanso para se recuperar e para tentar aprender como melhor se defender do ataque dos brancos, descobrir se a boca que fala pra fora do homem branco, “a que diz o que ele quer que o outro escute”, tinha ao menos um pouco de verdade em relação à boca pra dentro “que diz o que ele quer mesmo dizer”.

A própria existência de um livro como esse, por seu resgate histórico, a sua ambientação geográfica, e seu protagonismo e autoria feminina já é muito comovente; além disso, a escrita da autora é muito sensível e inclusive lírica em vários momentos. Ao mesmo tempo, é muito impactante e dolorido perceber que pouco mudou quanto ao tratamento cruel e injusto que os primeiros habitantes desta terra continuam recebendo.

Guerra no coração do cerrado é uma bela obra a que todas as pessoas, especialmente de Goiás, mas também de todo o Brasil deveriam ter a possibilidade de ler e sentir.

“Cada lado de uma guerra tem seu herói.

Estranho é quando os dois lados têm o mesmo herói. Quando isso ocorre, alguma coisa está errada ou fora do lugar.

A guerra que aconteceu no centro do coração deste país não foi pequena nem curta: durou séculos e exterminou várias nações indígenas.

No caso de Damiana – mitificada pelo lado do branco colonizador e respeitada e amada pelo lado indígena -, o que estava fora do lugar?”

Taluana Wenceslau

Taluana Wenceslau é uma das mediadoras do Leia Mulheres Goiânia e é pesquisadora de temáticas sobre a participação das mulheres e representações de gênero na cultura e na mídia, especialmente da América Latina.

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