Dicas da Imensidão

Por: Juliana Gomes | Em: 5 / agosto / 2017

Ele olha bem nos olhos dela e mente com tanta ternura, com sentimento tão sincero, com tanta tristeza implícita diante da falta de credulidade dela nele que ela não pode questioná-lo. Questioná-lo a tornaria dura e cínica. Ela prefere ser beijada, ela prefere ser querida. Ela prefere acreditar.” pág. 208. Conto “Dicas da imensidão”

Em Dicas da Imensidão Margaret Atwood nos presenteia com 10 contos que mostram a imprevisibilidade da vida, suas conexões perdidas, mistérios insolúveis e o tempo passando como um relâmpago sem nos darmos conta. A coletânea foi publicada originalmente em 1991, e alguns contos não são inéditos e já estiveram em revistas como The New Yorker, Playboy, Vogue, New Statesman e Harper’s.

A maioria dos contos é contado a partir do ponto de vista de mulheres, com seus diferentes olhares, sensibilidades e memórias, e o mote deles é quando elas se dão conta de que o tal happy end talvez não exista ou talvez não seja tão happy assim.

Passado e presente se confundem nos contos. Atwood captura os sentimentos da adolescência e os detalhes exatos que caracterizam a cultura das décadas dos anos 1950 aos anos 1990. Os eventos são vistos à distância, relacionados em prosa emocional mas reveladora de uma forma nua e crua. O tom duro de “Bola de cabelo” evoca o implacável e manipulador protagonista que de repente percebe que não é mais o protagonista das histórias que construiu e manipulou.

Em “Tios”, neste conto o termo “tio” é utilizado para cada homem que ajuda a jornalista, protagonista da história, recebe, pois criada pelos tio que ajudaram a ela e a mãe. Susanna reproduz discursos e críticas machistas como se fosse um homem ou os compreendesse. Mas talvez ela nunca tenha sido realmente aceita por esses homens e precise repensar cada ato.

“Mas na maioria das vezes a mãe de Susanna ficava lavando pratos com as tias, na cozinha, que, na opinião de Susanna, era o lugar onde elas deveriam ficar.” pág. 131. Conto “Tios”

No conto “Peso” talvez o que tenha me pego mais em cheio por tratar desse peso além da balança, o peso das cobranças da sociedade e o pior de todos o peso que você se atribuí. A carga que toda mulher carrega com criação de filhos, cuidar da casa e ainda ser profissional competindo o tempo todo com homens que ao chegarem em casa descansam.

“Estou ganhando peso. Não estou ficando maior, apenas mais pesada. Isto não aparece na balança: tecnicamente, continuo a mesma. Minhas roupas ainda me vestem bem, de modo que não é o tamanho, o que eles dizem sobre gordura ocupar mais espaço que seus músculos. O peso que sinto está na energia que consumo para me locomover: andar pela calçada, subir a escada ao longo do dia. Está na pressão em meus pés. É uma densidade das células, como se eu bebesse metais pesados. Nada que se possa medir, embora existam as pequenas protuberâncias de carne habituais que precisam ser tornadas mais firmes, mais musculosas, mais trabalhadas com malhação. Trabalhada. Tudo está se tornando trabalhoso demais.” pág. 173 Conto “Peso”

Atwood é cínica e áspera em seus contos sem ser simplista. A situação da mulher e o regime de patriarcado são jogados na cara do leitor o livro todo. Um livro, curto mas nada simples, assim como a autora.

Ger diz que Kat tem uma tendência para levar as coisas aos extremos, radicalizar, ultrapassar todos os limites apenas por um desejo juvenil de chocar, algo que não é substituto para verve ou espírito humorístico. Um dia desses, diz ele, ela irá longe demais. Longe demais para ele, é o que quer dizer.” pág. 43. Conto “Bodas de cabelo”

 

Juliana Gomes

Livreira, consultora comercial e marketing em livrarias e editoras. Exercita sua veia digital na Kontakt.

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