Anarquistas, Graças a Deus

Por: Sylvia Tamie Anan | Em: 9 / agosto / 2017

Se há uma questão que envolve a participação da mulher na literatura é a questão da mulher do escritor. Ainda que Virginia Woolf e Simone de Beauvoir tenham eventualmente ofuscado seus respectivos companheiros, há ainda muitas cuja obra ficou em segundo plano ou como apenas curiosidade, à sombra dos homens em suas vidas, como Veza Canetti ou Zélia Gattai.

Esposa de Jorge Amado – puramente pelo espírito de contradição, um dos autores mais misóginos entre os louvados pela tradição brasileira –, Zélia ainda por cima se dedicou a um gênero menor na literatura, a escrita de memórias. Publicado originalmente em 1979, Anarquistas, Graças a Deus é o relato de sua infância como filha caçula de uma família de imigrantes italianos na São Paulo das décadas de 20 e 30, uma história que continua com Um chapéu para viagem que já chega ao relacionamento com o futuro marido – Senhora dona do baile e Jardim de Inverno.

Além de ser um delicioso relato de tipos e situações de uma capital ainda provinciana e seus costumes, a leitora ainda encontra aqui e ali observações sobre a condição da mulher na época: as filhas do vizinho, mantidas no analfabetismo sob o pretexto de que assim não poderiam se corresponder com possíveis namorados; as leituras coletivas dos romances de folhetim; a comparação maldosa entre as habilidades das mulheres nos trabalhos domésticos; e a ignorância em relação ao corpo feminino, ao funcionamento da reprodução, e o susto com a primeira menstruação.

De outro lado, um dos temas centrais – dado no título – é a relação da família com o movimento anarquista, ainda muito mal compreendido, principalmente no Brasil – como a menina Zélia constata, por exemplo, quando a professora da sua primeira escola chama de “anarquia” a bagunça que as crianças fazem na sua ausência. Talvez para não comprometer a leveza das lembranças, a autora não se aprofunda na doutrina anarquista, limitando suas diretivas à narração da comunidade utópica no interior do Paraná, para a qual a família do pai se mudara originalmente.

Mas não deixa de ser interessante como a opção ideológica da família se insere no cotidiano da criança: na diversão junto com as outras crianças nas reuniões políticas frequentadas pelos pais, na briga da irmã mais velha pela remoção da alegoria anarquista, que fica na sala de jantar, na festa do seu casamento, mas também pelas contradições, como o fato de que o pai – anarquista, ateu, que não batizara nenhum de seus filhos – faz questão de que suas filhas se casem virgens.

Eu li Anarquistas, Graças a Deus quando ainda era menina e não percebia a evidente ironia do título. A forma leve de narrar e a linguagem simples são alguns dos fatores responsáveis por que eu me lembrava com nitidez da maioria das histórias contadas por Zélia, das mais divertidas às mais tristes, sempre pontuadas pelo comentário de dona Angelina sobre o “atrevimento” da filha mais nova, que afinal ainda comete o atrevimento de escrever um livro.

Sylvia Tamie Anan

Sylvia Tamie Anan tem mestrado em Teoria Literária, é professora e tradutora. Entre outros, já escreveu o blog O que diria Bandeira - http://oquediriabandeira.wordpress.com

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