Um amor incômodo

Por: Juliana Gomes | Em: 18 / julho / 2017

“‘Não me pareço com você’”, sussurrei enquanto passava um pouco de blush. E, para não ser desmentida, tentei não olhar para ela.” (pág. 48)

 Um Amor Incômodo foi o primeiro livro escrito por Elena Ferrante e foi publicado em 1992.  A novela revela as estranhas circunstâncias que cercam uma morte. Delia, um cartunista que vive em Roma, recebe três telefonemas incoerentes de sua mãe, Amália, que deveria sair de Nápoles para encontra-la. No dia seguinte, o corpo quase nu de sua mãe é encontrado no mar. Delia precisa fazer os preparativos para o funeral, avisar as irmãs e o pai e, ao mesmo tempo, se confronta com o passado.

A preocupação com o enigma da memória toma conta de Delia. Uma figura sombria chamada Caserta, amante de Amália, pessoa constante na infância de Delia e que talvez seja a última pessoa que viu a mãe viva pode ser a chave desse enigma. Nesta espécie de arqueologia, a descoberta de Delia sobre um segredo de sua infância se torna ainda mais perturbadora pela mistura de sentimentos.

Quando Ferrante para de utilizar a norma culta e parte para coloquial e para o dialeto,  ela nos choca com a crueldade real das suas imagens através das palavras, as quais transmitem perversidade e violência. As cenas de sexo são mostradas de uma forma peculiar, e ao mesmo tempo verdadeira.

A diferença da linguagem entre a coloquial e o dialeto, assim como na Tetralogia Napolitana, é o contraponto dos personagens dependendo do ambiente em que estão ou das pessoas que encontram. Desde seu primeiro livro, Ferrante traz a questão de pertencimento a Nápoles, os problemas que a cidade e como o cenário interfere no modo de vida de seus personagens..

A violência com que o pai tratava a mãe parece ser “compreendida” pelas filhas e pelo irmão de Amália, pois ela era uma mulher livre e tinha uma beleza exuberante. Algumas vezes vemos essas questões de competições entre mulheres presentes nos livros de Ferrante não como um consentimento, mas como um questionamento sobre esse comportamento. Somos ensinadas a parecermos com nossas mães, e as mães precisam ser um exemplo constante para as filhas. Depois de crescidas e vermos o que aconteceu com aquelas mulheres, as mães, podemos pensar que não somos ou não queremos ser parecidas com elas, nem ter o mesmo destino. Em vários momentos você pode se sentir como Amália e daí o desconforto. 

Ao reconstruir os últimos dias de sua mãe, costurando lentamente os acontecimentos daquela noite, Delia termina em um lugar desconhecido – o escuro armário da história – onde ela encontra os homens abusivos e o passado de sua mãe. Enquanto viajamos para as memórias de Delia, somos atraídos por um turbilhão de obsessão, amor, ciúmes, medo e abuso sexual e psicológico.

“Eu havia feito coisas demais que não devia: começara a correr, me deixara levar pela ansiedade, exagerara no frenesi.” (pág. 87)

São levantadas questões significativas que pedem leituras. Os romances de Ferrante, fora da Tetralogia Napolitana, Dias de Abandono e A Filha Perdida, continuam a exploração da psiquê feminina, em especial ao relacionamento mãe-filha. Não é um livro fácil, mas como todos os livros de Ferrante, é extremamente necessário.

Trailer do filme:

Juliana Gomes

Livreira, consultora comercial e marketing em livrarias e editoras. Exercita sua veia digital na Kontakt.

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