Entrevista: Joselia Aguiar

Por: Leia Mulheres | Em: 7 / julho / 2017

Entre os dias 26 e 30 de julho de 2017 acontece a 15ª Flip. Escrevemos um artigo sobre as mulheres que estarão presentes no evento deste ano e agora entrevistamos a curadora, Joselia Aguiar. Confiram.

Joselia, como foi o processo de curadoria da Flip? Como foi feito o convite?

Sou jornalista da área de livros desde 2005. Desde então já estive na Flip de muitas maneiras – já fiz cobertura como jornalista, fui mediadora certa vez e também assisti muitas vezes como público. Fui procurada pela Flip em agosto. Tivemos muitas conversas, eu e o Mauro Munhoz, um dos fundadores e atual diretor-geral, entre agosto e setembro de 2016. O convite me encontrou bem no momento em que eu entregava ao meu editor, Alcino Leite Neto, o livro que escrevi sobre o Jorge Amado, que deve sair em breve.

Como se deu a escolha de autores? A paridade entre homens e mulheres era uma preocupação desde o início? Teremos a primeira Flip com paridade de gêneros e com 30% de autores negros. Você teve alguma dificuldade para formar esse quadro?

A paridade foi uma preocupação diária. Se não tivesse sido, dificilmente eu teria conseguido mantê-la até o final. Se me distraísse dois dias, a conta já desandava. Editores e agentes sempre têm muito mais autores homens para sugerir, indicar, lançar. Há uma quantidade de autores homens mais publicados e traduzidos. Então é sempre mais rápido fechar as mesas pensando em autores homens. Sem dúvida escolhi um caminho que era mais difícil. Fiz algo como nadar contra a corrente –essa expressão serve de título, aliás, de uma das mesas. Preferia manter convites sem definição até encontrar uma combinação de autores mais inesperada, e isso para mim significava oferecer ao leitor alguma coisa além daquilo que ele já encontra. Então a paridade não era apenas uma meta para uma curadora mulher, era uma meta para uma curadora que queria propor conversas novas. Claro, o tempo inteiro buscava incluir no programa autores e autoras negros. Nunca tive um percentual em vista — cheguei aos 30% como conclusão de percurso, não como um objetivo previamente traçado.

Durante a coletiva sobre a programação da Flip, você comentou que percebeu uma certa dificuldade para que mulheres aceitassem os convites. Por que você acredita que isso acontece?

Sim, é daquelas impressões que temos no decorrer do trabalho e não há como comprovar cientificamente. Pelo que já li desde então, parece que o mesmo se repete em outras áreas. As autoras mulheres têm menos prontidão para viajar, por causa de compromissos familiares, por exemplo. Suponho também que pelos riscos que uma viagem oferece, se for um país desconhecido. Os autores homens respondem com mais rapidez. As mulheres recusam mais.

Algumas autoras da programação  não tinham ainda nenhum livro publicado no Brasil? Por que essas escolhas?

Quis muito trazer a Diamela Eltit, uma autora chilena muito importante nos departamentos de letras hispano-americanas em universidades de todo o mundo. Descobri a Scholastique Mukasonga logo quando comecei a pesquisar novas vozes da África. Entre autoras negras conhecidas no Brasil, as que convidamos não puderam confirmar. Trazer nomes ainda pouco conhecidos é também um dos compromissos da Flip, porta de entrada de grandes autores nesses 15 anos. Aproveito para fazer um registro importante: há muitas autoras de várias nacionalidades que são muito boas, premiadas lá fora e que ainda não chegaram aqui. Diria então que sempre haverá a possibilidade de apresentar autoras importantes que ainda não foram traduzidas, pois a defasagem é grande.

Como você avalia a resposta das editoras diante a sua proposta de curadoria?

Notei muito interesse não só das grandes, como também das de menor porte, em me enviar sugestões e mesmo me encontrar pessoalmente. Fiquei muito contente, porque isso me deu a possibilidade de contemplar opções de uma variedade grande de editoras de vários pontos do país. De um lado, havia num primeiro momento a impressão de que eu só buscava autores que falassem de feminismo ou ativismo negro. Aos poucos foram percebendo que autoras e autores, sejam brancos ou negros, poderiam estar em mesas dedicadas aos mais variados assuntos. Gostaria muito que essa nova compreensão ficasse como marca desta 15ª edição.

Você é a segunda curadora da Flip em 15 anos de evento. Como você enxerga isso?

Espero que seja cada vez mais comum uma curadora mulher. Interessante perceber que embora haja um maior número de mulheres na liderança em áreas como o jornalismo, em outras, como a editorial, os homens ainda predominam em postos de comando. Talvez haja uma explicação maior sobre a razão de não existir diversidade na literatura como já existe, por exemplo, na música. Talvez porque a literatura permaneceu mais fechada mesmo, ao longo do tempo, até pela escassez de leitores e leitores mais esporádicos.

Ao observarmos as edições anteriores da Flip, vemos que também há uma grande diferença entre mediadores homens e mulheres. A questão da paridade também aconteceu nesta esfera?

Também procurei um elenco de mediadores mais diverso. Não fiz as contas para comparar com os últimos anos, mas busquei a mesma paridade. Acho importante para que os diálogos também possam ser renovados.

Foto de José Terra Nogueira

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