Amora

Por: Michelle Henriques | Em: 12 / julho / 2017

“Nesses dias de chuva, tudo fica meio bagunçado dentro e em derredor, e é difícil para mim, já que sou meio triste naturalmente, digo, não sou uma pessoa alegre, sou engraçada, mas isso é diferente, mesmo quando seca e quente, tenho esse tipo de humor melancólico que dizem combinar mais com dias chuvosos e por isso talvez eu os despreze tanto, por conta das potências. De qualquer maneira, é difícil para mim controlar essa espécie de choro que vem. Na verdade, são só umas lágrimas silenciosas que nem chegam a escorrer até o fim da minha cara, ficam ali paradas, pelas pálpebras, e apenas marejam nas bordas.” págs. 202 e 203

Natalia Borges Polesso nasceu em 1981, em Bento Gonçalves. A escritora e também tradutora, lançou seu primeiro livro de contos Recortes para álbum de fotografias sem gente em 2013. Em 2015 foi a vez da poesia, com o livro Coração à corda. Já em 2016 publicou Amora, vencedor do prêmio Jabuti 2016 na categoria Contos e Crônicas, desbancando veteranos como Luis Fernando Veríssimo e Rubem Fonseca. É ótimo observar que as premiações estão prestando atenção em novos nomes com produção atual.

Amora é um livro extenso, com muitos contos, e isso talvez atrapalhe um pouco o entendimento. Há uma divisão no livro, a primeira parte, chamada “Grandes e Sumarentas”,  é de contos longos e a segunda de contos, chamada “Pequenas e Ácidas”, mais curtos. As protagonistas dessa primeira parte são mulheres lésbicas, de diversas faixas etárias e o livro é bastante honesto e próximo do leitor ao narrar situações cotidianas. A autora não trata a temática como algo panfletário, ela nos conta histórias de amores perdidos, de reconciliações, de descobertas e do amor que se estende por anos.

Já a segunda parte é formada por contos que não possuem narrativas tão claras como os da primeiro, são textos menores, numa espécie de fluxo de consciência.  É difícil fazer uma análise de todos os contos, alguns escapam da memória ao fim da leitura, mas no geral classifico este livro como muito interessante e necessário.

A literatura está aí para ser explorada e criada por qualquer um. É perfeitamente aceitável que um homem crie uma personagem lésbica, mas ele conseguirá se desvencilhar de todos os clichês? Em muitas narrativas a mulher lésbica é descrita apenas como objeto para o fetiche de um homem heterossexual. Amora não é assim, ele descreve os relacionamentos entre duas mulheres da forma mais honesta possível, mostra que as relações, independente da sexualidade, podem estar fadadas ao fracasso e ao erro, e também poder muito plenas.

Durante a leitura senti altos e baixos, alguns contos me emocionaram mais, como os que a autora descreve romances entre mulheres idosas, o amor que durou uma vida inteira e chega aos seus últimos suspiros. Meu conto preferido é “Wasserkur ou alguns motivos para não odiar dias de chuva”, que é um belo texto confessional e bastante íntimo, e dele que retirei o trecho de abertura desse artigo.

“Flor, flores, ferro retorcido” é um conto que possui uma ótima narrativa, um dos mais completos, a meu ver. Já “As Tias” é um belo texto que narra a vida de duas mulheres que vivem juntas há 60 anos, e a percepção de seus familiares sobre essa relação. A escrita de Natalia é bem simples, mas nessa simplicidade há alguma poética, o tipo de linguagem usado pela autora é certeiro para envolver os leitores.

Também é importante destacar que Natalia Borges Polesso estará presente na Flip 2017, em uma mesa de debate com Carol Rodrigues e Djaimilia Pereira de Almeida. Esta é a primeira Flip em que teremos mais autoras do que autores participando do evento. Falamos sobre isso aqui.

Michelle Henriques

Michelle Henriques tem 30 anos e é formada em Letras. Louca dos gatos e dos livros, é colunista no blog O Espanador e participa do podcast Feito por Elas.

Veja outros posts de Michelle Henriques