Prata da Casa: Pilar Bu

Por: Leia Mulheres | Em: 22 / junho / 2017

Em março deste ano iniciamos uma nova coluna aqui no site, intitulada Prata da Casa. Conversamos com mediadoras do Leia Mulheres que também são escritoras, e a ideia é que elas nos contem um pouco sobre seus trabalhos, seus processos de escrita e como se enxergam dentro do mercado editorial. Começamos com Déa Paulino, e dessa vez conversamos com Pilar Bu. Confiram abaixo a entrevista.

Você lembra quando você começou a escrever poesia?

Eu não lembro de uma data certa sabe, imagino que deva ter sido em um verão. Eu sou muito solar. Tudo sol no zodíaco e na vida! A verdade é que sou de uma família de sambistas e tenho muito orgulho disso. A música sempre esteve presente em casa, então curtir ritmo, cadências e versos aconteceu de maneira natural. Além disso, minha mãe é uma verdadeira devoradora de livros e sempre me estimulou muito. Eu sei que eu sempre quis ser passista de escola de samba e escritora, sempre disse que faria essas duas coisas, ela e minhas irmãs morriam de dar risada e bem, ser poeta deu muito certo, já ser passista… (risos).

O que te motiva a escrever?

O que mais me motiva a escrever é a possibilidade do afeto, de criar espaços de afeto. Acho que é o que me motiva a tudo. Eu não saberia viver se não pudesse escrever. Acho bacana quando as pessoas leem meus poemas e, de alguma maneira, se reconhecem no que tá escrito por que é exatamente isso que me motiva. Quando eu comecei a ler poesia achava estranho, hermético, difícil demais sabe… acho que uma das coisas que me motivou a escrever foi justamente pensar que não precisava ser assim. Podia tratar de vários assuntos que, aparentemente, não cabiam em poemas tradicionais. E daí foi como se o mundo se abrisse diante dos meus olhos por que escrever passou a ser algo possível pra mim, o melhor jeito que eu tenho pra dialogar com outras pessoas e com o mundo.

Como é o seu processo de escrita? O que te faz querer escrever?

O meu processo de escrita é delicioso e acho que ele tem dois momentos. O primeiro momento é que eu gosto de rua, de transitar pelas cidades, pelas ruas, de ver e conhecer pessoas (que as vezes nem sabem que as conheci), gosto da coisa do cotidiano, do dia-a-dia mesmo. E tem tudo a ver com a minha rotina, com pegar transporte público e ver como as pessoas se relacionam com o mundo e como certas coisas afetam a muita gente ao mesmo tempo. Não gosto e nem quero ser alheia ao que me cerca. Costumo dizer que eu tenho horror aquela figura do poeta na alta torre do castelo que despreza a todos e tudo que está em sua volta. Eu não sou assim. Pra mim a poesia é o jeito mais importante de me colocar no mundo, então passa pela minha militância e pelas coisas que eu acredito, ainda que não seja autobiográfica. Não que eu ache que todo mundo tem de ser militante em sua poesia, mas eu sou.

O segundo momento, de sentar e escrever pra mim demanda um certo empenho de tempo, de me debruçar sobre os versos, de ter sempre mil cadernos espalhados por lugares da casa e das bolsas para não me deixar esquecer de nada. Gosto de separar uma parte do dia pra escrever, mesmo que algumas minutos. E gosto de fazer exercícios. As vezes um poema demora meses para ficar pronto, então eu gosto de voltar nos rascunhos, relembrar, ter ideias. Tem poema que sai na hora e ganha mundo e isso é bem lindo também.

O que me faz querer escrever é mesmo essa vontade de descortinar e tocar em questões que me são importantes, de possibilitar encontros com outras pessoas, encontros esses que não seriam possíveis se não fossem pela poesia.

Escrever é o que me motiva todos os dias a levantar de manhã e saber que as coisas valem a pena, e coloco muito isso em tudo que faço mesmo como professora e pesquisadora. O que me faz escrever é a vida, que é urgente e não espera.

Você acaba de lançar um livro: conte sobre o processo dele.

O Ultraviolenta foi pensado como livro, concebido em seu projeto mesmo em 2013. Lá tem coisas mais antigas, sinto que o processo de gestação dele não durou 4 anos, durou minha vida inteira sabe? Pra chegar aqui, nesse momento tão especial em que ele será lançado. Do jeito que eu quero.

O ano de 2013 foi um dos mais difíceis e decisivos da minha vida. Foi quando eu percebi que ou eu mudava a maneira como ele lidava com minha vida profissional ou fatalmente eu morreria. Foi o ano que eu percebi que eu não escrevia pra não morrer, mas que eu escrevia pra viver.

Descobri um poder pessoal muito grande e percebi que uma série de agressões que eu sofria por ser mulher, principalmente na rua, no ônibus, no trajeto entre a minha casa e o serviço, e no próprio serviço, eram partilhados por outras mulheres. Aí eu sentei e fui escrever, organizar as ideias e os poemas. Fui trabalhar concretamente na ideia antiga de escrever um livro, adormecida desde 2009.

Eu renasci como poeta e como mulher e percebi que eu precisava deflagrar toda aquela violência, por que ela era na verdade ultraviolenta e assim surgiu naturalmente a ideia do livro, da necessidade de dizer, e o título veio como sugestão do meu companheiro, num bate-papo numa noite fria paulistana.

Quanto à capa (que é magnífica), bem… eu sabia que queria uma capa preta, uma cobra, uma ideia de ouroboros (que é quando a cobra engole a própria calda), por que a ideia do livro é essa: de renovação, de transformação. O livro tem até trilha sonora, a música Serpente, da cantora Pitty (risos).

E eu lutei muito por essa capa, queria que fosse perfeita e do tamanho do meu sonho. Por fim, percebi que a pessoa que podia melhor expressar tudo isso era ele, meu companheiro, que me conhece como ninguém. Vinícius ouviu a música, conversamos muito e chegamos nessa capa que pra mim é primorosa, perfeita, tudo que eu sonhei e a Kotter Editorial recebeu a ideia com muito carinho, lutou por ela também. Tanto a ideia do livro, quanto a ideia da capa. Eu só tenho a agradecer que o universo conspira e tenho pessoas maravilhosas me cercando. É um livro pra ser devorado sem moderação. Acredito que todo mundo vai gostar. O lançamento em Goiânia é dia 15 de abril, vai ter em São Paulo e Curitiba também. E acho que vou fazer um encontrinho menor em Brasília.

Onde você já publicou?

Bem, eu já publiquei em três antologias poéticas: Maus Escritores (Demônio Negro, 2009); Patuscada (Patuá, 2016); Os olhos do bilheteiro (Nega Lilu editora, 2016). E também publiquei em diversas revistas eletrônicas como Parênteses, Escritoras Suicidas, Mallarmargens, Subversa, Zunai, Germina, Raimundo, na revista Gilda e no jornal literário O RelevO. Dá pra conferir tudo no meu blog pelo link: https://ultrapilarbu.wordpress.com/publicacoes/ . Lá eu também gosto de rabiscar umas impressões do mundo e afins.

Você já tem um plano para próximas publicações?

Como pesquisadora sairão, em breve, três capítulos de livro, dois sobre o assunto que mais gosto que é a importância de tirar o véu e romper o silêncio da mulher na literatura; vai ter um  também sobre homoerotismo masculino. Agradeço muito às oportunidades que me estão sendo dadas de mostrar esse meu lado também, que é a militância a respeito de grupos subalternizados dentro da academia, esse espaço tão difícil.

Acho que sairão, em breve, alguns poemas meus em uma publicação eletrônica, mas é surpresa, tá muito lindo o que preparei para esse convite tão especial que eu recebi.

Meu segundo livro já tem nome, estou já estruturando o formato do projeto, pensando em como irei desenvolver ainda mais a questão de temas que julgo importantes para a minha poesia. Quase todos os poemas estão escritos, estou bem animada. Não quero demorar 4 anos para publicá-lo, então assim que eu trabalhar bastante o Ultraviolenta já quero botar o bloco de novo na rua (risos).

Esse momento é do Ultraviolenta, levei 4 anos para conseguir vê-lo publicado, não sei descrever a felicidade que estou sentindo por que é a realização do sonho de uma vida. Então eu quero trabalhar muito o Ultra (como eu chamo carinhosamente), quero viver tudo isso e estamos preparando coisas lindas ainda para essa obra.

No mais, bem… continuo o meu trabalho em prol da visibilidade de mulheres escritoras, dentro e fora da academia, como pesquisadora, como poeta, como professora, como participante do leia mulheres. Tem sido uma bela jornada até aqui, tenho muito orgulho de tudo que construí e como a gente nunca constrói nada sozinha, eu também só tenho a agradecer. Obrigada a você que me lê.

Leia Mulheres

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