Outros jeitos de usar a boca

Por: Michelle Henriques | Em: 12 / maio / 2017

Sempre tive muito problema com a forma que a literatura é abordada nas escolas, principalmente a poesia. Ela é ensinada de forma que distancia os alunos, tirando qualquer prazer que possa haver na leitura. Para mim poesia não é algo que possa ser ensinado, é algo que você lê e alguma coisa se conecta ao seu entendimento.

Não gosto de resenhas técnicas ou acadêmicas, meu intuito com meus textos é demonstrar meus sentimentos perante alguma leitura. Como poesia acho mais difícil, pois cada pessoa pode ter uma forma diferente de entendimento de versos. Ou não se conectar também, o que é perfeitamente normal.

Meu primeiro amor na poesia veio com os brasileiros fatalistas Augusto dos Anjos e Álvares de Azevedo. Depois vieram os portugueses melancólicos, Florbela Espanca, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Já adulta me encantei pela poesia de Charles Bukowski, e agora, uma mulher de 30 anos, me encanto por Sylvia Plath, Ana Cristina Cesar e Anne Sexton.

Em meio a tudo isso conheci Rupi Kaur. A canadense se tornou popular ao divulgar seu trabalho como poeta e ilustradora em seu instagram. Agora chega ao Brasil, pela Editora Planeta, seu livro Milk and Honey, aqui traduzido como Outros jeitos de usar a boca.

O livro é dividido em quatro partes: A dor, O amor, A ruptura e A Cura. Como dizem os nomes, cada parte possui poemas sobre esses temas, além de belíssimas ilustrações. Em “A dor” Kaur versa sobre sua relação com a figura paterna e também sobre as imposições de ser mulher em uma sociedade machista.

você me diz para ficar quieta porque

minhas opiniões me deixam menos bonita

mas não fui feita com um incêndio na barriga

para que pudessem me apagar

não fui feita com leveza na língua

para que fosse fácil de engolir

fui feita pesada

metade lâmina metade seda

difícil de esquecer e não tão fácil

de entender

Em “O amor” ela traz lindos poemas sobre o se apaixonar e se perder em outra pessoa. O amor para Rupi Kaur é quente e em movimento, são fagulhas que se acendem a todo momento.  “A ruptura” quebra esse clima, com poemas tristes, ainda que bem realistas e conformados.

não sei por que

me rasgo pelos

outros mesmo sabendo

que me costurar

dói do mesmo jeito

depois

“A cura” talvez seja a parte mais bonita do livro. Os poemas tratam, como sugere o nome, de um momento de renascimento após momentos de dor e de ruptura. Ler esses poemas é como conversar com uma amiga e sentir um abraço caloroso em momentos em que tudo parece sem solução.

o corpo das outras mulheres

não é nosso campo de batalha

Todos os poemas de Rupi Kaur possuem uma linguagem acessível, sendo possível que todos se aproximem de seu trabalho e possam se identificar com alguns versos. Com uma temática atual e feminista, a autora é uma jovem voz representante da poesia contemporânea. Que seus versos de revolução e empoderamento cheguem a todos que precisem deles.

Michelle Henriques

Michelle Henriques é louca dos gatos e trabalha com livros. Ama café, escreve sobre cinema no Cine Varda e fala de terror no The Witching Hour.

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