As mulheres da Flip 2017

Por: Leia Mulheres | Em: 31 / Maio / 2017

Entre os dias 26 e 30 de julho de 2017 acontece a 15ª Festa Literária Internacional de Paraty, e este é o segundo ano em que uma mulher é a curadora do evento. Josélia Aguiar, jornalista nascida em Salvador, ficou responsável pela escolha dos artistas que estariam presentes nesta edição. Tendo Lima Barreto como autor homenageado, as mesas foram pensadas de acordo com os temas tratados pelo autor, principalmente o racismo, e a literatura produzida fora do eixo, que está à margem seja social, seja territorial.

Esta é a primeira vez que o número de mulheres supera o de homens convidados para o evento, com 24 mulheres e 21 homens. Também é a primeira vez em que o número de autores negros está com uma participação mais expressiva, com 30% dos convidados, uma porcentagem ainda pequena, mas já vemos uma grande evolução em relação a eventos passados, principalmente a Flip de 2016, que foi muito questionada pela ausência de autores negros na tenda principal de debates.

A 15ª Flip traz muitas mudanças estruturais, algumas mesas serão diferentes, haverá a intervenção artística nomeada “Fruto Estranho”, com 6 artistas de diversas linguagens fazendo pequenas apresentações durante a programação. Também nota-se a presença de autores publicados de forma independente e/ou em editoras pequenas. É a primeira vez que não temos autores de editoras grandes nas principais mesas. Espera-se que outros festivais literários sigam os passos da Flip e pensem mais na representatividade entre escritores, dando espaço para mulheres, autores negros e indígenas.

Josélia Aguiar fala sobre a sua curadoria: “Havia expectativa para que essa edição tivesse mais negros e mulheres. São dois movimentos paralelos de ativismo muito importantes e isso nos fez repensar a representação dos eventos literários. Há cinco anos, ninguém era perguntado sobre isso, ficava todo mundo silencioso, era naturalizado.”

A curadora também ressaltou que as mulheres e os autores negros não falarão apenas sobre seus papéis dentro do mercado literário. Será sim discutido o preconceito e o racismo, mas as conversas serão amplas, desde estes temas, passando pelo autor homenageado Lima Barreto, até suas próprias escritas. Ela buscou autores que não estavam no centro geopolítico, convidou escritores de Ruanda, da Islândia e da Jamaica, países que nunca tiveram convidados na Festa antes.

Boa parte dos autores que estarão no evento ainda não foram traduzidos para o Brasil ou serão lançados por ocasião da festa. Muitos fogem dos padrões que estamos acostumados a ver nas prateleiras das livrarias, talvez esse seja um dos motivos pela falta de tradução. Espera-se que a Flip seja responsável por divulgar mais o trabalho desses escritores.

Diversas mesas foram pensadas do ponto de vista feminino, como por exemplo a que ocorre no dia 27 de julho, intitulada “Em nome da mãe”, que será composta por Noemi Jaffe e Scholastique Mukazonga. O nome é um trocadilho com a frase “Em nome do pai”, que já foi título de mesas da Flip em duas edições. As autoras falarão de literatura e também sobre a presença materna em suas obras.

Josélia Aguiar também argumentou que é muito mais fácil montar mesas com homens, pois eles tendem a aceitar prontamente os convites. Devido a uma estrutura patriarcal machista da sociedade, as mulheres escritoras precisam pensar em diversas questões antes de aceitar tais convites, como por exemplo saberem se há estrutura adequada para que possam trazer seus filhos.

Essa é uma Flip de mudanças, com mais autoras do que autores e com presença de autores negros, fatos incomuns nas edições anteriores. Para celebrar, nós do Leia Mulheres montamos um pequeno guia a respeito das autoras que estarão presentes na Flip de 2017.

Mesas

Ana Maria Gonçalves: autora mineira, atualmente tem uma coluna no site The intercept. Lançou em 2006, pela Record, o livro Um defeito de cor. Também é dramaturga e já morou nos Estados Unidos, onde ministrou aulas e cursos sobre a questão racial.

Ana Miranda: autora recifence de romances históricos e biografias. Seu livro mais recente é Xica da Silva: a Cinderela negra, pela Record.

Beatriz Rezende: a crítica literária e pesquisadora, uma das pioneiras sobre Lima Barreto – participará de duas mesas – “Arqueologia de um autor” e “Subúrbios”.

Carol Rodrigues: autora carioca, com seu primeiro livro lançado, Sem vista para o mar, lançado pela Edith, ganhou o prêmio Jabuti de melhor livro de contos de 2015. Para a Flip, lançará pelo selo Jota, da e-galáxia, a novela Ilhós.

Conceição Evaristo: autora mineira, atualmente tem uma exposição sobre sua carreira no Itaú Cultural. Seu livro de contos Olhos d’água, publicado pela Pallas Editora, ganhou o prêmio Jabuti na categoria em 2005. Desde então, seus livros, muitos publicados de forma independente, foram relançados. Para a Flip, foram relançados pela Pallas Editora Ponciá Vicêncio e Becos da Memória e pela editora Malê Insubmissas lágrimas de mulheres.

Deborah Levy : autora sul-africana. Já tem lançado no país Nadando de volta para casa, pela Rocco, e vai lançar na Flip Coisas que não quero saber pela Autêntica.

Diamela Eltit: a autora chilena tem sua trajetória muito ligada à política, à crítica feminista e às histórias periféricas. Por ocasião da Flip, terá dois livros lançados no país: Jamais o fogo nunca (pela Relicário), e o livro de ensaios A máquina Pinochet e outros ensaios (pela E-galáxia).

Djaimilia Pereira de Almeida: autora luandense, assina coluna mensal na Revista Pessoa, foi uma das vencedoras de um prêmio de ensaios da revista serrote. Lançou seu primeiro livro em 2017 Esse cabelo, que sairá no país pela editora Leya.

Joana Gorjão Henriques: jornalista portuguesa, colunista do jornal Público. Escreveu o livro Racismo em Português – o lado esquecido do colonialismo (ainda sem previsão de lançamento no Brasil), em que investiga o racismo nos países que foram colônias portuguesas.

Leila Guerriero: escritora e jornalista argentina, tem uma coluna no jornal El pais. É editora da América Latina da revista gatopardo, de jornalismo narrativo. No Brasil tem um livro lançado em 2015 pela Bertrand, Uma história simples.

Lilia Schwarcz: historiadora e pesquisadora, lançou diversos livros, entre eles Brasil: uma biografia. Lança na Flip a biografia de Lima Barreto Lima Barreto: Triste visionário.

Luciana Hidalgo: jornalista e escritora, ganhou o prêmio Jabuti em 2011 com Arthur Bispo do Rosário: o senhor do labirinto, em que narra a história do artista que viveu 50 anos internado na Colônia Juliano Moreira. O universo de Lima Barreto foi tema de dois livros da autora: Literatura de urgência: Lima Barreto no domínio da loucura e O passeador. Seu livro mais recente é o romance Rio-Paris-Rio.

Maria Valéria Rezende: a autora, nascida em Santos, tem uma trajetória diferente. A partir de sua militância política conheceu a igreja e desde 1966 é freira pela Congregação de Nossa Senhora. Ganhou o prêmio Jabuti em 2015 com o romance Quarenta Dias, que saiu pela Alfaguara. É também de sua autoria o romance com traços autobiográficos Outros Cantos, publicado também pela Alfaguara.

Natália Borges Polesso: ganhadora do prêmio Jabuti de 2016 na categoria de contos com o livro Amora (ed. Dublinense), a autora gaúcha também tem o livro de poemas Coração à corda (ed. Patuá). Foi considerada pelo Hay Festival da Colômbia como um nos nomes promissores da literatura latino-americana com menos de 40 anos.

Niéde Guidon: paulista, é a mais importante arqueóloga do país. Em 1992 muda-se para o Piauí, onde funda o Parque Nacional da Serra da Capivara, território que possui mais de 600 sítios arqueológicos.

Noemi Jaffe: autora paulista, jornalista e crítica literária, lançou uma série de livros durante sua carreira. Entre os mais recentes, O que os cegos estão sonhando?, pela editora 34, e Írisz: as orquídeas, pela Companhia das Letras.

Pilar del Río: jornalista espanhola, é presidenta da Fundação José Saramago, que este ano traz uma programação própria para a Festa.

Scholastisque Mukasonga: a autora foi testemunha dos conflitos étnicos de seu país, Ruanda. Foi morar na França em 1992, pouco antes do genocídio que resultou desses conflitos e que vitimou sua mãe e diversos membros de sua família. Por ocasião da Flip, terá dois dos seus romances lançados no Brasil pela editora Nós: A mulher dos pés nús, que sairá em junho, e Nossa Senhora do Nilo, que será lançado durante a Festa.

Fruto estranho

Adelaide Ivánova

Grace Passô

Josely Vianna Baptista

Prisca Agustoni

Observação: ainda não foram confirmados os dois nomes das líderes comunitárias que participarão da mesa Zé Kleber.

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