Leia Mulheres BH: Conceição Evaristo

Por: Mari Castro | Em: 9 / março / 2017

Posso dizer que tive o privilégio de conhecer Conceição Evaristo. Ela compareceu ao encontro do Leia Mulheres de Belo Horizonte em que discutimos Olhos d’Água, em fevereiro de 2016. Ela já tinha entrado em contato conosco pelo facebook, dizendo que ficou sabendo que discutiríamos o livro dela e que gostaria de ir ao encontro, mas não conseguiu confirmar. Então eis que, no meio do encontro, enquanto discutíamos o livro, ela entrou de fininho e se assentou na roda. No meio da discussão. Muitas pessoas não perceberam que ela estava presente, até que uma participante disse não ter entendido o que ela quis dizer com um trecho do livro e alguém respondeu: “pergunta pra autora, ela está aí do seu lado”. E então Conceição Evaristo sorriu e, respondendo aos pedidos de que ela se pronunciasse, pediu que deixássemos um espacinho para ela falar no final, porque era uma oportunidade para que ela, enquanto escritora, pudesse ouvir seus leitores da forma como estava fazendo (imagine só!). Continuamos o bate papo e ao final Conceição Evaristo falou. E falou lindamente, respondeu, tirou fotos e autografou os livros de todos que estávamos no encontro com um carinho enorme. Se para Conceição Evaristo foi interessante nos ouvir, para nós foi um encanto tê-la ali. Foi, em minha opinião, o encontro mais emocionante que já tivemos até hoje.

A escritora mineira, natural de Belo Horizonte é hoje doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense, mas a fonte de onde parece beber para sua escrita é a da vida, da oralidade e do cotidiano das pessoas negras e pobres. Nascida em 1946 em uma favela da capital, Conceição Evaristo retrata esta vida e este cotidiano. Nos dois livros que li dela (Ponciá Vicêncio e Olhos d’Água) é marcante a presença da mulher negra e periférica tão distantes de minha própria realidade. Não me sinto confortável, em meu lugar de fala, para falar muito sobre sua obra e seus personagens. Apenas posso dizer que sua escrita me marcou muito. Ter acesso aos seus livros foi uma experiência tão incrível quanto a de ler Quarto de Despejo de Carolina Maria de Jesus. Suas narrativas constroem um universo bonito e dramático sem, entretanto, ser jamais piegas e suas personagens são tão bonitas quanto sofridas. As mulheres dos contos e romances de Conceição Evaristo são muito reais e o seu posicionamento de, enquanto escritora, se situar neste contexto, da favela, da mulher, do negro, é uma das formas de sua militância.

Não é intrigante a dificuldade de encontrar alguns de seus livros que, assim como os de Carolina Maria de Jesus, estão esgotados em quase todos os lugares e estão bem caros nos sebos? É bem clara a predileção do mercado editorial brasileiro por escritores homens, brancos, cisgêneros e de classe média. Mas para isso temos o Leia Mulheres, não é mesmo? Tenho certeza de que, procurando em bibliotecas ou  pegando emprestados, pode-se e deve-se ler Conceição Evaristo.

Camila e Mariana, mediadoras, com Conceição Evaristo

 

*As fotos que ilustram este texto são de André Castro

Mari Castro

Mari Castro tem 30 anos, é graduada em Turismo, estuda Ciência Política e é Miss Cafeína. É a velha doida dos gatos e gasta todo o seu dinheiro com livros e cerveja. Passou um ano lendo só mulheres e foi convidada para ser mediadora do Leia Mulheres em Belo Horizonte, o que acredita ser uma das melhores coisas que aconteceu na sua vida.

Veja outros posts de Mari Castro