Fratura e resistência em Os Excluídos, de Yiyun Li

Por: Pilar Bu | Em: 15 / março / 2017

Quando o livro de Yiyun Li ganhou a votação do clube de Goiânia eu realmente não sabia o que esperar. Propusemos a leitura de escritoras orientais em virtude de nossa própria defasagem ao tema, no anseio de que o outro lado do mundo se descortinasse aos nossos olhos e aos olhos dos participantes do clube.

Os excluídos traz histórias e personagens fraturadas, que vão se imiscuindo e embrincando para formar um grande mosaico da China pós Revolução Cultural. Assim conhecemos Kai, Nini, Gu Shan, Bashi, Sr. e Sra Hua, o pequeno Tong.

Ao título em português parece escapar toda a necessidade do livro de deflagrar a desolação, o despertencimento e a necessidade das personagens em encontrarem seu lugar no mundo. O título em inglês, The Vagrants, dá uma noção mais pertinente de marginalidade, de pessoas que estão, de alguma maneira, desencaixadas dentro de seus próprios universos.

Com uma linguagem crua e sem rodeios, Yiyun Li transforma Os excluídos em uma grande obra sobre a miséria humana. Não apenas aquela que faz a barriga roncar pela ausência de alimento, mas que desumaniza, que destrói e desqualifica a capacidade de produzir empatia, alteridade e compaixão. Os dramas que entrecruzam a vida das personagens encontra o ponto da necessidade de sobrevivência. Parece pertinente dizer que desmitificar a figura do mártir é o caminho usado pela autora para dessacralizar os estereótipos sociais, deslocar o olhar do leitor para a compreensão de que os seres humanos não são nem totalmente maus e nem totalmente bons.

Nesse sentido, a polarização clara entre as personagens masculinas e femininas marca a tonalidade da obra. Em sua maioria, os homens, mesmo os meninos, são aqueles que traem, que desistem, que se resignam, são condescendentes ao sistema por estarem em uma posição de dominação em relação às mulheres. E por saberem disso se colocam empenhados em massacrá-las, diminuí-las e desqualifica-las.

A necessidade de mostrar o humano como demasiado humano, que extrapola os limites de sobrevivência em uma ditadura, revela as personagens como a desconstrução dos estereótipos sociais. Ao mostrar Bashi, um predador sexual, como alguém que ao longo da trama é capaz de empenhar uma jornada cheia de altos e baixos para criar a sua própria família, a autora questiona a condescendência social com esse tipo de indivíduo. Bashi não é um monstro, muito pelo contrário, é de carne e osso. Está mais dentro da realidade do que imaginamos. De acordo com suas normas de conduta é capaz de demonstrar preocupação e os mais diversos sentimentos a quem lhe convém. Ainda que possa cativar pessoas a sua volta demonstra um jogo perverso de manipulação e poder. Com isso, Yiyun Li não o coloca e posição de vítima, de herói, de incompreendido ou de doente, mas de alguém com total ausência de caráter, que pelo reconhecimento dos privilégios tem torna-se capaz de premeditar ações cruéis e que se revela extremamente consciente de suas escolhas.

Já as mulheres são fortes, complexas, resistem, cada uma a sua maneira, à sociedade falocêntrica e patriarcal que as oprime. São as portadoras das vozes subversivas, que desconstroem o lugar da mulher na China comunista, onde elas deveriam ter mais protagonismo. E é justamente em contraponto com esse protagonismo idealizado que elas aparecem como marginalizadas dos marginalizados, as preteridas, aquelas que não deveriam ter nascido e cuja existência é a própria resistência.

A violência contra elas está pontuada de maneira crítica e contundente no livro. Desde a mutilação e estupro do corpo de uma mulher morta, passando pela mulher analfabeta oprimida pelo marido intelectual; pela boa esposa de classe-média sufocada na vida perfeita pautada pela maternidade e o casamento compulsórios; pela subversiva que tem brutalmente seus rins e cordas vocais arrancados para satisfazer as necessidades de seus algozes, até chegar na criança que acredita que a relação com um predador sexual é a melhor opção para a sua vida de abandonos e falta de perspectivas.

Durante a leitura, Yiyun Li nos convida ao exercício constante de não romancizar os abusos físicos, sexuais, simbólicos e de gênero, que são pontuados de maneira clara e objetiva às personagens femininas. E salienta as consequências dessa romancização que são a morte, a agressão e subalternização dessas mulheres.

A narrativa, ainda que dura, revela um cuidado muito minucioso com os detalhes, num processo de escavação da natureza humana, das mazelas que atingem a todos, ainda que de maneira diferente. Um livro pra ser lido com calma, sem pressa, num processo de entrega para compreender uma realidade que, salvo as questões culturais, não está tão longe de nossa realidade.  

Por fim, a leitura se mostrou uma surpresa por sua densidade, pela urgência e necessidade dos temas abordados, revelando-se uma escolha que não descortina apenas o “outro lado do mundo”, mas as camadas mais profundas da pele e da alma humanas.

Pilar Bu

Pilar Bu (RJ, 1983) é poeta, mestranda em literatura, triplo-fogo do zodíaco, feminista e assumidamente viciada em carnaval. Mora em Goiânia, na Toca dos Vampiros, com seus gatos. É co-criadora do coletivo Minaescriba e mediadora do Leia Mulheres em Goiânia. Já publicou em revistas eletrônicas, como Mallarmargens, Parênteses, Escritoras Suicidas, Subversa e Germina, e pretende lançar seu primeiro livro, Ultraviolenta, ainda em 2016. Escreve para o blog https://ultrapilarbu.wordpress.com

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