Como ser as duas coisas

Por: Juliana Gomes | Em: 20 / março / 2017

“Porque se as coisas acontecessem mesmo que simultaneamente ia ser que nem ler um livro em que todas as linhas foram impressas uma vez a mais, como se cada página fosse duas mas com uma por cima da outra pra deixar tudo ilegível.” pág. 19

Ali Smith questiona ideias sobre a sexualidade com a ambiguidade  de George,  põem em cheque a relação entre mãe e filha, aborda temas  como o luto, a história da arte e o suspense.

Como ser duas coisas fala sobre feminismo e identidade de gênero, mas vai além. As brincadeiras  com o tempo e a importância da forma marcam o livro,  assim como boa parte das obras de Ali Smith. Considerada uma nova Virginia Woolf, Smith extrapola as semelhanças entre as duas, embora esse romance traga elementos e questões que nos façam entender as comparações.

“E eu imagino que os tempos em que você era ao menos gentil comigo no que se refere ao feminismo já passaram, mas nem vou reclamar, já que não fazer diferença e já que a história do feminismo ensina a gente a não esperar grandes gentilezas mesmo…” pág. 26

O romance tem duas partes: uma delas conta a história de George (chamada Georgia na certidão de nascimento), uma adolescente que está tentando lidar com a morte súbita de sua mãe. A outra parte conta a história de Francesco del Cossa,  um artista italiano que realmente viveu durante a Renascença. As duas narrativas estão ligadas porque George e sua mãe (e que se identifica com estrelas dos anos sessenta, como a atriz Monica Vitti ou a cantora Sylvie Vartan)  foram à  Itália para ver um afresco pintado por del Cossa, e acabou  sendo a última viagem delas juntas. George se interessa  pela vida do pintor como uma maneira de se lembrar de sua mãe, e até pesquisou del Cossa para um projeto escolar.

Ali Smith imagina del Cossa como uma mulher vestida de homem e rebatizada com um nome masculino, e que por sua vez toma George (cujo nome favorece a ambiguidade) por um rapaz. Como ser duas coisas, pode ser  considerado um romance de ideias. O estilo de escrita em cada parte, no presente com George ou no passado com Del Cossa,  é muito diferente. Embora o fluxo de consciência seja um ponto comum na prosa, os pensamentos adolescentes de George se movem rapidamente entre as memórias recentes e passadas há muito tempo. A narrativa sobre o artista é mais poética e fragmentada. O texto é adorável, mas requer concentração.

George começa a pesquisar sobre pornografia, Francesco se torna um habituée de um bordel onde  desenha prostitutas e  vende seus retratos. E a verdade de seu gênero é descoberto no momento em que suas paixões são desbloqueadas pela primeira vez. A dor do luto e da perda está marcada nas vidas das duas heroínas sem mãe de Smith, mas uma exploração do romance não só na linguagem. Inúmeras críticas citam George como uma adolescente pedante, eu a vejo como alguém em busca de si mesma. A personagem explora sua personalidade em sua relação com H. ou com Linda,  a misteriosa amiga de sua mãe que vai e vem na história.

O poder transformador da arte, mas no desordenado modo de ser humano, de querer ser duplo. As possibilidades desencadeadas pelo desejo de não ser nem uma coisa nem outra significa que cada um pode sempre se esforçar para ser ambos. Com grande sutileza e inventividade, Smith continua a expandir os limites do romance.

Juliana Gomes

Livreira, consultora comercial e marketing em livrarias e editoras. Exercita sua veia digital na Kontakt.

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