A teta racional

Por: Juliana Leuenroth | Em: 16 / março / 2017

Uma das bandeiras do Leia Mulheres é mostrar que não existe a tal da “literatura feminina”. Dentre os diversos motivos que podemos citar, eu destaco o simples fato de que não há apenas um “tipo” de mulher ou uma única temática referente ao <voz empostada> “universo feminino” </voz empostada>. A constatação às vezes pode causar surpresa, mas segura essa marimba: as mulheres podem ser tão plurais quanto os homens!

A Teta racional, livro de estreia de Giovana Madalosso, é uma coletânea de contos que mostra algumas dessas vozes possíveis. Ainda que os temas abordados sejam cotidianos, cada um deles aponta para uma faceta, uma realidade diferente. O que chama atenção em todos os contos é a sinceridade absoluta ao tratar aquilo que foi proposto e muitas vezes a acidez da autora em determinados textos.

Os dez contos do livro oscilam entre o humor e a melancolia, da mesma forma em que os temas vão variando. Enquanto o conto que dá título ao livro tem um ar irônico para falar de maternidade e relações de trabalho, “A paraguaia” tem um certo ar de nostalgia e tristeza ao contar sobre o reencontro de duas antigas amigas e a constatação do quanto mudou na vida delas depois de tantos anos afastadas.

A relação entre mães e filhos talvez seja a mais tratada no livro. Mas cada um dos contos traz uma realidade, uma fase da vida ou ainda uma visão deste papel social. Destaco aqui dois deles: “XX + XY” e “Suíte de sombras”. O primeiro fala sobre as descobertas e a solidão do puerpério, pontuado com comentários irônicos sobre o processo.

“Um dia ainda vão descobrir que o isolamento urbano mata mais do que o cigarro. Se estivesse na roça, eu estaria melhor. Eu teria mãe, avó, irmãs, quem sabe até umas primas por perto para dar uma força. Era assim que funcionava, e funcionava bem. Mas eu sou uma mulher dentro do recorte de uma janela, de um prédio, de um condomínio, de um bairro, de uma cidade. Eu tenho que fingir que quero dançar com o meu bebê no colo para encontrar com algumas pessoas.” (pg 20 “XX + XY”)

“Suíte das sombras”, conto que fecha o livro, é sobre a mãe e filha que tentam reconstruir sua relação depois de anos afastadas. As duas partem em uma viagem de carro, onde muitas vezes o silêncio revela mais do que as duas imaginam.

“Eu sei porque ficamos o almoço todo em silêncio, só ouvindo o balanço ranger, cansadas demais para puxar algum assunto que forjasse nosso desconforto. Desde que acordamos, o clima entre nós estava estranho, uma espécie de ressaca do que dissemos e, principalmente, do que não chegamos a dizer uma para outra no farol. Além disso, não dava mais para esconder: havia dezesseis anos de afastamento entre nós. Era impressionante o quanto eu podia ser tão íntima e tão distante de uma pessoa ao mesmo tempo. Enquanto comia, fiquei pensando sobre o que ela e minha irmã deviam conversar: roupas, negócios, amigos em comum, e que é a partir de estruturas assim, corriqueiras, que se constrói o amor.” (pg 117 “Suíte de sombras”)

A autora também varia em relação aos formatos dos contos. Enquanto alguns são mais desenvolvidos, outros flertam com a estrutura do mini e do microconto, como no melancólico “Fim”, ou ainda em “Instantâneos”, que parece um convite para imaginarmos junto com a autora aquela narrativa. Em comum, todos têm aquele punch final. Uma pequena ironia, uma pontada de tristeza, algo para se pensar…

Giovana não escolhe palavras “delicadas” para se referir ao corpo da mulher, é seca e bem direta. Sua escrita causa impacto, pois a autora foge completamente dos clichês utilizados para descrever a anatomia feminina, ela se vale de palavras fortes e trata de assuntos pouco costumeiros com essa linguagem. A sua escrita mistura a crueza e a ironia. Nada é glamurizado, ela não tenta chocar apenas por chocar, a linguagem de seus contos não está fora de lugar, não soa artificial.

Juliana Leuenroth

Juliana Leuenroth nasceu em São Paulo, é jornalista e livreira. Atualmente é estudante de Letras. Também escreve o blog O Espanador.

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