A filha perdida

Por: Michelle Henriques | Em: 10 / março / 2017

“As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender.” pág. 6

Após concluir a leitura do meu quinto livro da Elena Ferrante posso dizer que a #FerranteFever é mais do que justificada. Essa é minha terceira resenha dela para o site, então não vou me ater a essas questões de quem seria a verdadeira Elena Ferrante. Creio que nesta altura a autora conseguiu o que realmente queria, que sua obra se tornasse maior do que sua biografia. E isso nos basta.

A Filha Perdida é um romance único de Elena Ferrante lançado no Brasil em 2016 pela Intrínseca (a editora detém os direitos de todas as suas obras, exceto a Tetralogia Napolitana e Dias de Abandono). Originalmente publicado em 2006 na Itália, foi traduzido para os Estados Unidos em 2008 e só chegou ao Brasil ano passado graças à grande fama alcançada pela Tetralogia Napolitana.

Além da literatura, sou apaixonada por cinema e vejo muitos filmes. Muitos deles me causam uma sensação de incômodo, de que algo ruim está para acontecer a qualquer momento. Tenho essa mesma sensação com os romances únicos de Ferrante. Em A Filha Perdida não foi diferente. Seu enredo é simples, uma mulher com filhas adultas se encontra sozinha pela primeira vez em muito tempo, sendo responsável apenas por si mesma e resolve passar férias na praia.

Nessa praia ela acaba se envolvendo de forma bastante peculiar com uma família bem numerosa. Há um acontecimento cômico que promove esse envolvimento, mas que ao mesmo tempo é bastante estranho e desencadeia sentimentos controversos na protagonista. Ela começa a recordar momentos de sua própria vida, sua relação com suas filhas, bem como suas escolhas ao longo da vida.

A protagonista de A Filha Perdida não é uma mãe ideal (perante os padrões da sociedade), não deixa sua carreira para trás para se dedicar à maternidade, ela questiona esses pontos de forma bem sutil ao longo do livro. Aqui é impossível não se recordar de Ana de Amsterdam, de Ana Cássia Rebelo, que em forma de diário trata dessas mesmas questões. É sempre interessante ver uma mulher falando da maternidade de forma nada romantizada e onírica.

Outra semelhança que encontrei entre as duas escritoras foi a visão que elas passam em seus livros quanto aos homens. Enquanto Rebelo os chama de “merdosos e cobardes”, Ferrante diz “Os homens sempre têm alguma coisa de patético, em qualquer idade. Uma arrogância frágil, uma audácia pávida”. Além de questionarem a maternidade, elas colocam em cheque o papel que os homens exercem em suas vidas. Duas escritoras com temáticas e até mesmo públicos diferentes, mas com alguns pontos em comum.

Creio que o grande trunfo da autora é sua escrita envolvente, que consegue agradar os leitores mais exigentes, até aqueles consumidores de leituras mais populares. Costumo brincar que a Ferrante pode escrever até bula de remédio e ela fará o assunto ser interessante para o leitor. Esse é um dos pontos que mais gosto na autora, além da sagacidade na escolha das capas (que levam o leitor a crer que sua escrita segue outro caminho), ela ainda popularizou a escrita e a tornou acessível para todos.

Michelle Henriques

Michelle Henriques é balzaquiana e formada em Letras. Louca dos gatos e dos livros, escreve no blog Feminist Horror e participa do podcast Feito por Elas.

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