Virginie Despentes não pede desculpas – uma resenha de Teoria King Kong

Por: Gabriela Ventura | Em: 7 / fevereiro / 2017

“Escrevo a partir da feiúra e para as feias, as caminhoneiras, as frígidas, as mal comidas, as incomíveis, as histéricas, as taradas, todas as excluídas do grande mercado da boa moça. E começo assim para que tudo fique bem claro: não me desculpo de nada, não vim aqui para reclamar. Não trocaria de lugar com ninguém, porque ser Virginie Despentes me parece um assunto mais interessante do que qualquer outro.”

A declaração de intenções de Virginie Despentes está expressa já no primeiro parágrafo do livro.  Teoria King Kong é uma coletânea de ensaios sobre uma mulher que não ocupa nenhum papel tradicional associado ao feminino: decorativo, reprodutivo, passivo, acolhedor. É uma escrita irada, combativa, veloz no raciocínio e arguta em suas análises. São as experiências e projeções de uma autora que abraçou o punk antes de sequer ouvir falar sobre feminismo, e quando resolveu conjugar ambos os pensamentos o fez com uma agressividade despudorada.

É, sobretudo, o relato de uma mulher que não pede desculpas.  A culpa é associada ao feminino desde sempre, está na base dos mitos fundadores da cultura ocidental – da transgressão de Pandora à cobiça de Eva. Pedimos desculpa por desejar o que desejamos, e até por nos negarmos a sermos objetos do desejo alheio. Pedimos desculpas mesmo por coisas que fogem ao nosso controle, pelas violências que sofremos, por tudo aquilo que poderíamos fazer de forma perfeita, não estivéssemos já tão sobrecarregadas de exigências reais. Pedimos desculpas por nossas escolhas e por nossas renúncias, é um cenário em que não se pode vencer de forma alguma.

Os ensaios de Teoria King Kong estão entremeados com citações de livros clássicos feministas como Um teto todo seu, de Virginia Woolf, O segundo sexo, de Simone de Beauvoir e Mulheres, raça e classe, de Angela Davis. A bibliografia sugerida ao fim do livro é vasta: cita pioneiras como Mary Wollstonecraft mas não se esquece de questionamentos contemporâneos, como as discussões de gênero e pós-humanidade de Donna Haraway. O discurso acadêmico, no entanto, não a constrange, e Despentes adora provocações, e não tem medo de ferir sensibilidades.

Sua abordagem do mito da beleza deixaria Naomi Wolf orgulhosa, principalmente pelo reconhecimento de que a mídia não dá espaço às mulheres que “são mais King Kong do que Kate Moss” – e ela ainda pode falar sobre a recepção dos próprios filmes que escreveu e dirigiu. Tendo sido estuprada na adolescência, questiona o estigma da vítima e a insistência da sociedade para que o trauma não seja superado, e para que a mulher reviva um sem número de vezes a violência sofrida, paralisando-a. O ensaio sobre prostituição – intitulado “Dormindo com o inimigo” – oferece o ponto de vista de uma mulher que trabalhou vendendo o próprio corpo e pondera aspectos positivos e negativos da prática, da cultura por trás do ofício e das implicações econômicas e sociais que não podem ser desvinculadas de noções moralistas – criadas e perpetuadas pela mesma sociedade que consome e degrada prostitutas.

Concordando ou discordado de Virginie Despentes – e durante a leitura fui muitas vezes de um ponto a outro, em poucos parágrafos – é impossível ficar imune ao charme punk-incendiário da autora. Precisamos de análises sérias (não apenas sobre o feminismo) feitas por mulheres, assim como precisamos de variedade de representação feminina nas culturas pop e erudita. Mas também precisamos de enfants terribles enfiando o pé na porta com seus coturnos e muita audácia. Só nos resta torcer para que  essa energia inconformista e iconoclasta transborde das páginas de Teoria King Kong e encontre leitoras que precisam de um empurrãozinho para pararem de se desculpar por serem quem são.

Gabriela Ventura

Doutora em Literatura Portuguesa (UFRJ), professora e encrenqueira.

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