Olhos D’água

Por: Carla Soares | Em: 24 / janeiro / 2017

Enxergar do alto a imensidão de um espelho d’água, sentir num salto a água se chocar forte contra o corpo, e em seguida o corpo leve como num mergulho: essas são as sensações que nos percorrem ao se ler Olhos D’água, da escritora e professora mineira Conceição Evaristo.
Ganhador do prêmio Jabuti de 2015, o livro é formado por um conjunto de 15 contos. Alguns deles já haviam sido publicados anteriormente pelos Cadernos Negros, publicação literária focada em cultura afro-brasileira que se iniciou no período da redemocratização brasileira. Em Olhos D’água, esses contos se juntam a outros para compor um mosaico de histórias, personagens e cenários distante do cânone literário, e por isso mesmo, tão emblemáticos.

Olhos D’água traz à tona vozes negras, periféricas e em contextos de grande vulnerabilidade social. Fala da banalidade da vida e de como ela se esvai entre os dedos, feito água. Nos faz entender como essas experiências ficam à margem e têm sua validade suspensa porque são constantemente silenciadas.

A água dos olhos que está no título aparece como uma imagem por todo o livro. A forma líquida, que se acomoda a qualquer recipiente em que a colocamos, se parecem com os personagens da autora, que estão constantemente em busca do seu espaço, do seu lugar, de algo que os comporte e os acolha neste mundo.

Alguns dos contos nos dão a vertigem de compreender o tamanho do silenciamento que sofrem os personagens. Sentimos como se estivéssemos na beira do precipício mirando o espelho d’água, prestes a mergulhar pra entender. Em Duzu-Querença, a busca é pela relação com o mundo e a família, contada na vida de Duzu e encarnada no nome tão sugestivo da neta Querença. Já em Beijo na face, enxergamos o apagamento do amor entre mulheres num mundo de controle que só serve aos homens. Ou ainda quando ao olhar para o mar, a personagem de O cooper de Cida se sente convidada pelos repetitivos movimentos de ir e vir do mar a examinar o seu ir e vir cotidiano.

Vários dos contos, no entanto, não mostram a água nessa forma mais fluida e sutil, convidativa para a mirada; eles mais se parecem com um pulo que damos de barriga, que dói e nos faz sentir o corpo todo. Maria conta a história de uma trabalhadora que vai pra casa, e que acaba sendo julgada e condenada pelas pessoas que dividiam o transporte coletivo com ela. A história fala dos julgamentos que fazemos, das histórias que não vemos, e de como elas mudam de direção sem que a gente nem se dê conta. Quantos filhos Natalina teve? traz a tona a dor do estupro, de ser mãe, e a violência do cotidiano. E em Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos nos doem a vida na favela, e a impotência diante do sangue que escorre.

Mesmo trazendo uma tensão tão grande por evocar dramas cotidianos e uma realidade de falta de perspectivas, Olhos d’água consegue ter uma poética que as vezes nos deixam com a sensação leve de estar com o corpo flutuando no mergulho que a autora nos leva a realizar. Em Ei, Ardoca, fala-se do cansaço de todos os dias, de todos os trabalhos, e do sacolejar do trem que embalou os primeiros dias do personagem e que servem de mórbido ninar no momento derradeiro em que ele deixa de pertencer à vida. Imagens delicadas e duras, feito alguém que “costura a vida com linhas de ferro”, como a própria autora faz aparecer em dois de seus contos (Olhos D’água, que abre o livro, e A gente combinamos de não morrer, penúltimo conto).

Há, em todo o livro, a certeza de que “não morrer nem sempre é viver”, mas isso não deixa uma mensagem negativa. O último conto, em especial, nos faz reler todos os anteriores de uma maneira mais amena. Conceição Evaristo nos deixa entrever que para viver é indispensável o desejo de que existam outros caminhos, e saídas mais amenas. Para viver é preciso parir a esperança que se forma dentro das nossas entranhas, e que a leitura também é uma forma de parir e sangrar.

Este será o livro a ser debatido na estreia do Leia Mulheres em Pato Branco – PR.

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Carla Soares

Carla Soares é mestre em Comunicação Social pela UFMG, e escreve sobre livros no projeto Mulheres que Escrevem e sobre nossa relação com a comida no outracozinha.com.br.

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