A poesia de Warsan Shire

Por: Rosana Íris | Em: 3 / janeiro / 2017

“No one leaves home unless home is the mouth of a shark-” (Ninguém sai de casa a menos que casa seja a boca de um tubarão)
trecho de Conversations about home (Conversas sobre casa)

Costumo dizer que todo mundo gosta de poesia; mesmo quem não tem o hábito lê-la acaba por escutá-la, na forma de música. Assim foi o meu primeiro contato com a poesia de Warsan Shire, ouvindo seus poemas sendo recitados por Beyoncé, entre uma música e outra de Lemonade. “For Women Who Are Difficult To Love” e “The Unbearable Weight of Staying (the End of the Relationship)” dialoga tão bem com todo o álbum que na primeira ouvida considerei serem partes das músicas. Ouvi e li sobre Lemonade obcecadamente e quando descobri que os poemas eram de outra autoria, corri pra achar o livro de origem.

Aqui devo abrir um parênteses e dizer que meu gosto literário se deve bastante à Beyoncé. Conheci Chimamanda Ngozi Adichie através de “***Flawless” e hoje, depois de ter lido AmericanahHibisco Roxo e Sejamos Todos Feministas, ela tem um lugar especial na minha lista de escritoras favoritas. Por isso, estava bastante ansiosa pra conhecer mais da “poeta de Lemonade“.

Mas não foi fácil encontrar algo de Warsan Shire. Sua primeira coletânea de poemas está prevista para 2017 e já publicado são apenas três chapbooks (algo como livro de impressão barata). O único deles disponível em e-book “Teaching my mother how to give birth” não inclui os versos já eternizados pela voz de Beyoncé mas serviu para me apresentar à poeta e sanar minha curiosidade.

O título do livro é originado da tradução para o inglês de um provérbio Somalis, algo como “o filho que ensina a uma mãe a natureza da maternidade”. E é justamente família um dos temas recorrentes durante os vinte e um poemas de Teaching…“. Shire faz uso da perspectiva familiar para abordar temas como estupro e bulimia, personalizando uma realidade que gostamos de pensar como distante. Frequentemente consideramos situações extremas de violência como algo que acontece apenas com outras famílias. Shire coloca a vítima e/ou o agente da violência como uma mãe, avó ou pai, nos colocando dentro de uma realidade que preferimos ignorar. É o que acontece em “Fire”:

“What do you mean he hit you?
Your father hit me all the time
But I never left him
He pays the bills
And he comes home at night,
What more do you want?”

(“O que você quer dizer com ele te bateu?
Seu pai me batia o tempo todo
Mas eu nunca deixei ele
Ele paga as contas
E vem pra casa a
 noite
O que mais você quer?”)

Com um histórico pessoal que proporciona vasto material (Shire é Somalis-Britânica, nascida no Quênia e residente de Londres), imigração é outro tema recorrente em seus poemas. Em “Conversations about home”, Shire usa da prosa poética para falar sobre a inadequação sentida em solo estrangeiro:

“I know a few things to be true. I do not know where I am going, where I have come from is disappearing, I am unwelcome and my beauty is not beauty here. My body is burning with the shame of not belonging, my body is longing. I am the sin of memory and the absence of memory.”

(“Eu sei que algumas coisas são verdadeiras. Eu não sei pra onde estou indo, de onde eu venho está desaparecendo, eu não sou bem-vinda e minha beleza não é bela lá. Meu corpo está queimando com a vergonha de não pertencer, meu corpo arde. Eu sou o pecado da memória e a ausência de memória.“)

Teaching My Mother How to Give Birth toca repetidamente em temas relacionados à realidade de ser mulher. E no caso de Shire, uma mulher negra. Seu estilo, que em muitos momentos lembram uma conversa, aborda com naturalidade a traição matrimonial, a perda da virgindade ou mesmo câncer de mama. Ela acaba por nos ensinar não só o que é ser mãe, mas também o que é ser mulher, em um mundo tão hostil a nós.

Infelizmente ainda não existe nada da Warsan Shire traduzido para o português. Torço para alguma editora entrar no hype em torno da autora e traduzi-la. O livro é curto e caberia fácil um lançamento em e-book, por exemplo, e agradaria a todos nós, fãs de poesia. Enquanto isso, você pode assistir Lemonade ou esse vídeo e conhecer a autora da mesma forma que eu, escutando sua poesia.

(As traduções livres são da autora deste texto)

Rosana Íris

28 anos, mezzo roteirista mezzo redatora. Gosta de filme triste e de café quente.

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