Quarto de Despejo

Por: Michelle Henriques | Em: 6 / dezembro / 2016

“Eu deixei o leito as 3 da manhã porque quando a gente perde o sono começa pensar nas miserias que nos rodeia. (…) Deixei o leito para escrever. Enquanto escrevo vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. Que as janelas são de prata e as luzes de brilhantes. Que a minha vista circula no jardim e eu contemplo as flores de todas as qualidades. (…) É preciso criar este ambiente de fantasia, para esquecer que estou na favela.” (pág. 60)

Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento, Minas Gerais em 1914. Após o falecimento de sua mãe na década de 40, ela se mudou para São Paulo e se estabeleceu na favela do Canindé. Era catadora de papel e assim sustentava a si mesma e a seus três filhos. No final da década de 50, o repórter Audálio Dantas esteve na favela para fazer uma reportagem. Assim conheceu Carolina de Jesus e tomou conhecimento dos mais de 20 cadernos em que ela escrevia sobre a rotina na favela, sobre acontecimentos políticos e principalmente sobre sua luta pela sobrevivência.

O livro foi editado por Audálio Dantas, após uma seleção desses cadernos. No prefácio ele diz que manteve a escrita “errada” de Carolina, apenas mudando alguns pontos que seriam ilegíveis para o leitor. Ele também afirma ter cortado algumas partes repetitivas, porém esse é o tom do livro, a repetição dos diários representa a repetição da rotina de Carolina. Todo dia começa com ela indo até a torneira buscar água, observando pessoas fofocando e brigando. A escrita é uma fiel representação de sua vida, repetitiva, dura e áspera.

O tema recorrente é a fome. Carolina dependia da venda do papel que recolhia pelas ruas de São Paulo para comprar alimentos para sua família. Ela não recebia muito apoio de nenhum dos pais de seus filhos. Ela nunca quis se casar, pois presenciou muitos casos de violência doméstica e não queria isso para si. Sua escrita dura relata a violência diária que ela observava na favela e por causa de seus cadernos, os vizinhos não gostavam muito dela.

Mas apesar dessa aspereza, Carolina tem certa poética em sua escrita ao falar sobre racismo, sobre o papel da mulher, sobre a violência causada pelo alcoolismo. Ela sempre questiona o porquê dos homens ficarem deitados enquanto as mulheres e as crianças saíam em busca do sustento das famílias. Em diversos momentos ela fala sobre suicídio, como às vezes parece ser a única saída, mas ela resiste.

A escrita era o refúgio da dura realidade. Ela diz “O livro é a melhor invenção do homem” (pág. 24) e através deles Carolina se educou. Questionadora, ela sempre fazia críticas ao governo da época, fala sobre comunismo e racismo. Ela, vítima de preconceitos por ser negra, observa e relata preconceitos também dirigidos a nordestinos que viviam na favela.

Ao tecer críticas ao comportamento de seus vizinhos, Carolina era vista como esnobe. Há relatos de que ela não era uma pessoa muito agradável, mas levando em conta a vida que vivia, nada mais justificado. Mesmo com condições árduas de vida, a escrita de Carolina contém certo tom poético. Além de “Quarto de Despejo”, ela publicou mais alguns livros, escreveu peças de teatro e letras para marchas de Carnaval. No ano de 1961 ela também gravou algumas canções.

Quarto de Despejo” talvez esteja entre um dos mais importantes livros da Literatura Brasileira. Infelizmente ainda não é muito lido, nem debatido nas escolas. A temática deste livro pode parecer local, mas os assuntos abordados por Carolina são muito mais amplos e servem de aprendizado para todos.

Michelle Henriques

Michelle Henriques é louca dos gatos e trabalha com livros. Ama terror, café, escreve no blog Feminist Horror e no site Cine Varda.

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