A princesa e a costureira

Por: Thaís C. Vitale | Em: 18 / novembro / 2016

Em um país que “debate” temas como a escola sem partido, propor um pensamento crítico e reflexivo sobre a diversidade pode ser considerado um ato de coragem. Se esse ato estiver relacionado ao debate sobre relacionamentos homossexuais, temos, então, um posicionamento revolucionário.

Janaína Leslão, psicóloga formada pela Unesp e Conselheira do CRP- SP (Conselho Regional de Psicologia), milita de forma ousada e corajosa ao propor um debate com pré-adolescentes e adolescentes sobre o homossexualismo. Para isso, escolhe nada menos que um dos gêneros mais difundidos na escola e que mais idealizam o amor: o conto maravilhoso ou conto de fadas.

Vladimir Propp, folclorista russo, explica que “os personagens do conto maravilhoso, por mais diferentes que sejam, realizam frequentemente as mesmas ações. […] No estudo do conto maravilhoso o que realmente importa é saber o que fazem os personagens.” (PROPP, 2010, p.21).

Janaína Leslão renova o tradicional conto clássico infantil ao colocar como protagonistas não a princesa e o príncipe comumente usados, mas duas mulheres que se apaixonam. Assim, elas não realizam as mesmas funções que as demais personagens tradicionais, já que enfrentam a fúria de um rei e o preconceito de um reino inteiro.

Em “A princesa e a costureira (Metanoia Editora, 52 páginas), o leitor acompanha a história de Cíntia, uma princesa prometida desde a infância para casar-se com Febo. Devido a um encantamento da Fada Madrinha, a princesa só poderia casar-se com seu amor verdadeiro, que seria revelado assim que essa pessoa tocasse em suas costas. Qual não é a surpresa, na idade adulta, ao descobrir que se apaixonou por Isthar, a costureira que faria seu vestido de casamento!

Essa história, com certeza polêmica, discute a diversidade e apresenta diferentes questionamentos. Em uma passagem, o narrador revela: “Cíntia começou a chorar porque temia pelo futuro incerto de todos. Disse à irmã que os reis e as rainhas não a perdoariam por descumprir um compromisso assumido por eles já muito tempo. Pensava que o povo de EntreRios deixaria de amá-la. Que magoaria Febo, seu melhor amigo. Para piorar, a tradição dizia que uma mulher tinha que amar um homem. E agora, seria jogada na rua por amar uma mulher? Seria condenada a um casamento forçado apenas para cumprir o que era esperado pela tradição? Como faria para que todos entendessem que esse amor era tão amor quanto outros amores? Seria melhor fugir do reino?

O livro é repleto de ilustrações de Júnior Caramez e a história já foi adaptada aos palcos pelo Teatro da Conspiração de Santo André.

Thaís C. Vitale

Editora de materiais didáticos e professora de Língua Portuguesa. Ama ler, ver filmes e séries.

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