A Menina Submersa

Por: Monique | Em: 22 / novembro / 2016

Queria ser escritora, escritora de verdade, pois, se eu fosse, imagino que não estaria fazendo uma confusão tão feia com essa história. Me perdendo, tropeçando nos meus pés. Queria ser lúcida o suficiente para sempre distinguir fato de imaginação, (…)

India Morgan Phelps, ou Imp, é uma jovem pintora diagnosticada com esquizofrenia que decide escrever uma história de fantasmas, não uma história qualquer de fantasmas, mas sobre os fantasmas que assombram a sua mente. Essa história é escrita num fluxo de consciência e, coincidência ou não, ela é fascinada por Virgínia Woolf, escritora britânica que viveu no final do século 19 e início do século 20, e utilizou essa forma de escrita em sua obra. A escolha de Virginia para ser a escritora preferida de Imp não parece ser proposital, pois Virginia se suicidou no rio próximo à sua casa, e morte e água são constantes em A Menina Submersa.

Imp trabalha numa loja de materiais de pintura e também pinta quadros para vender aos turistas que visitam sua cidade, Providence. Além disso, a jovem vive com sua namorada, Abalyn e tem um fascínio (ou seria uma obsessão?) por por temas relacionados à sereias e lobos: A Pequena Sereia, conto-de-fadas inspirado no folclore dinamarquês, bem como outras referências folclóricas às selkies, criaturas mitológicas que vivem como focas no mar e assumem a forma humana em terra, e a rusalka, ninfa aquática do folclore eslavo; com os lobos a relação é mais espinhenta.

Numa determinada noite, Imp decide passear de carro pela cidade enquanto sua namorada trabalha, e encontra uma mulher nua no acostamento. Ela acaba levando a mulher para sua casa, o que leva a uma briga com Abalyn. Eva Canning, que não sabemos se é real, se é um fantasma ou se é fruto da mente de Imp, aparece dissociada em duas, a Eva de julho, que Imp associa às sereias e ao quadro A Menina Submersa, e outra em novembro, no inverno, associada aos lobos e ao quadro Fecunda Ratis. Esses quadros, como a autora explica no final do livro, são fictícios, mas a sua descrição é tão bem feita que somos levados a acreditar que eles realmente existem. A presença de Eva em sua vida leva a uma briga com Abalyn, que vai embora da casa, deixando Imp sozinha e completamente paranoica. Ela deixa de tomar os remédios e somos levadas numa viagem à sua mente como ela realmente é.

A forma de fluxo de consciência da história é um dos pontos positivos do livro, e com isso Caitilín consegue criar uma atmosfera tão opressiva em torno de Imp que cheguei a imaginar que a autora falava sobre si ou sobre alguém próximo. Imp não é uma narradora confiável, nós nunca sabemos se ela está vendo um fantasma, se ela está falando sobre algo que aconteceu ou se ela criou aquela memória, dialoga consigo a ponto de às vezes parecer que existe um narrador onisciente acima dela. A não linearidade da narrativa confunde, mas não é exatamente assim que funciona com a nossa mente? Nossa memória e lembranças não são exatamente confiáveis, e Caitlín conseguiu imprimir isso muito bem, e apesar de ela dizer que não é uma escritora de horror, “A Menina Submersa” é uma história que fala do horror de não saber se está são, de não ter certeza sobre o que se vê, de não poder confiar plenamente em seus sentidos, e Caitlín conseguiu obter essa incerteza muito bem.

Monique

29 anos, apaixonada por história, línguas, gatos, chá preto e fã de filmes e livros de terror e ficção científica.

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