O Não de Bruna Mitrano

Por: Aline Aimée | Em: 24 / outubro / 2016

Publicado recentemente pela editora Patuá, “Não” é primeiro livro da poeta carioca Bruna Mitrano, que já vem escrevendo há uns bons oito anos, com publicações em coletâneas e revistas literárias. Esse  “Não” de Bruna é das coisas mais incisivas e verdadeiras que já li em poesia. É uma poesia-tabefe, abrupta e necessária.

Os versos da poeta gritam de volta para o mundo toda uma bagagem de angústia acumulada. Sua mensagem é clara: não me entrego. Num mundo bárbaro, constituído por seguidas violências, a poesia de Bruna busca ressignificar o absurdo.

“sísifos num desgaste eterno – existe algo que te impede de acabar, todas as quintas.” — P. 28

Se as múltiplas agressões diárias são cegas, viciadas e arbitrárias, a violência poética dos versos de Bruna é lúcida e política. Abordando temas como pobreza, sexo e loucura, Bruna cria uma poética da visceralidade e da selvageria que não quer apaziguar; pelo contrário, busca reabilitar o olhar para os ataques diários que naturalizamos e que nos embotam, ainda que nos traumatizem. É preciso acordar, agir, insurgir-se. Valer-se da dureza das cicatrizes para continuar insistindo.

(…)

não há o que se ver que não sobrecarregue a carne

o corpo ainda sente

curva-se ao inevitável

tomba no meio da rua e conclui

não se dá as costas pra morte

há sempre um diagnóstico

preto no branco

vou morrer de tempo ou

vou fazer o quê?

re: _____________________. — P.34

Essa, porém, nunca é tarefa fácil, e o impulso de morte está sempre ali à espreita, seduzindo-nos.

(…)

as mãos estavam vazias

quando o homem louco

aos berros no meio da rua

esclareceu

o último gole

a raiva ainda alinhada —

é difícil, ele disse,

morrer. — P. 29

No entanto, é preciso não se intimidar com o sangue vertido, encará-lo em desafio e afirmação de força.

gestação infinita

o filho podre a filha cerca viva

meu útero arregaçado expelindo medo em sangue

porque é meu horror que gero —

sei me ferir. — P. 20

Bruna constrói seus versos denunciadores em torno de experiências-limite, vidas por um fio, marcadas pela dor e pelo desamparo.

(…)

sozinho:

um homem construiu sua casa com as próprias mãos.

demoliram a casa e ergueram um muro. — P. 26

(…) na aridez inalcançável dos pés descalços

resiste

a criança tão criança e velha,

sozinha e livre” — P. 15

Bruna faz campo minado em  “Não”: escolheu bombardear com versos, reagir com ímpeto. Toda essa batalha, no entanto, é porque a esperança persiste e o desejo de mudança está presente — ocorra ela por cisão ou comunhão.

“amanhã fará dia, pois o recomeço prescinde de guerras e tufões e pisando em ovos esperamos uma resposta aguda, a minha mão fria nas suas costas brandas ou nossos discursos pobres em algum café.” — P. 28

Além dos poemas, a coletânea traz ilustrações que dialogam com eles, tanto em relação ao tema quanto no que se refere a uma expressividade pelo choque. Com um estilo que alia objetividade, sutileza e sofisticação, e que explora a imagem impactante, a síncope e associações inusitadas, a poesia de  “Não” trata da resistência. É sobre sobreviver e recusar a derrota, buscando fincar a experiência periférica e marginal na cena poética. Nesse sentido, é um Não profundamente afirmativo.

Aline Aimée

Aline Aimée é funcionária pública, formada em Letras. Blogueira, gateira, poeteira e presepeira. É uma das mediadoras do Leia Mulheres no Rio de Janeiro.

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