Vozes de Tchernóbil

Por: Thaís C. Vitale | Em: 20 / setembro / 2016

Vozes avassaladoras

Todo leitor que acompanha seus pares em redes sociais diversas deve ter notado que um dos livros mais elogiados dos últimos meses é “Vozes de Tchernóbil”, de Svetlana Aleksiévitch (Cia das Letras, 384 páginas). A autora bielorrussa, vencedora do Nobel de Literatura 2015, esteve no Brasil em 2016 para participar da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) e falou sobre as vozes que a marcaram e propiciaram seu trabalho com a escrita: “Fui criada numa aldeia na Bielorrússia em que só viviam mulheres, porque após a guerra não sobreviveram homens. Me lembro de ouvir nas ruas as conversas daquelas mulheres, elas contavam como haviam se despedido de seus maridos. Isso era muito forte e me marcou pelo resto da vida” (trecho de entrevista concedida ao jornal O Globo).

“Vozes de Tchernóbil” apresenta relatos avassaladores sobre o terrível desastre nuclear ocorrido em Tchernóbil (ou Chernobil) há 30 anos. Diferentemente de outros livros sobre o assunto, Aleksiévitch apresenta o acidente pela perspectiva humana. Para isso, entrevistou, ao longo de anos, diversas pessoas: esposas de trabalhadores, mães, moradores que se recusaram a sair da zona de evacuação, médicos, bombeiros, liquidadores, físicos, professores, crianças, entre outras inúmeras vozes.

Os relatos dão ao leitor diferentes dimensões do acidente e apresentam o homem soviético, que, tão diferente de nós ocidentais, é educado para pensar, sobretudo, no coletivo. Desse modo, a negação para contribuir com as ações a fim de minimizar os impactos do desastre é considerada uma atitude mesquinha, egoísta. Diversos voluntários cientes dos perigos da radiação participaram dos trabalhos realizados nas cidades para que fossem limpas e evacuadas.

Algumas pessoas de áreas técnicas apresentam uma visão peculiar. São físicos e especialistas que alertaram o governo sobre as ações que deveriam ser tomadas para proteger, minimamente, a população e não foram ouvidos. Em um dos depoimentos, são transmitidas informações absurdas, como o fato de não haver, na época, nenhum físico na equipe que atuava na usina nuclear!

As vozes em geral transmitem uma visão dolorosa de um episódio cruel, pior que a guerra, já que o inimigo enfrentado era invisível e incompreensível para a maior parte das pessoas.

Por meio de uma tessitura muito bem construída (textos como o de Svetlana Aleksiévitch são um primor para quem aprecia um livro bem escrito), a autora consegue, ao mesmo tempo, chocar o leitor e deixá-lo preso em uma narrativa avassaladora. Assim como ela, nós não saímos ilesos da leitura dos relatos e percebemos que a literatura, além de encantar, cumpre uma função importantíssima: a de nos fazer refletir para tentar ser pessoas melhores.

Thaís C. Vitale

Editora de materiais didáticos e professora de Língua Portuguesa. Ama ler, ver filmes e séries.

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