Mulheres no Crime – De Agatha Christie a Gillian Flynn, as mulheres se destacam na literatura policial

Por: Fabiane Secches | Em: 25 / agosto / 2016

Existe assombro maior do que temer a pessoa com quem compartilhamos a vida, aquela em quem deveria se confiar o bastante para dividir as indefesas noites de sono? Quando a ameaça não vem de um desconhecido, a história fica mais assustadora, já que estamos mais vulneráveis.

Em seu texto “O Inquietante”, Freud fala sobre o afeto homônimo que a percepção de um elemento “estranho” em um objeto conhecido pode nos causar. Para Freud, o estranho e o familiar são dois grupos de ideias “que, não sendo opostos, são alheios um ao outro: o do que é familiar, aconchegado, e do que é escondido, mantido oculto”.

Ler romances policiais se tornou uma experiência fascinante para mim, pois o universo criminal permite que os conflitos se estabeleçam de modo quase mítico. Nos meus livros favoritos do gênero, a ameaça vem de alguém próximo, com quem se tem uma relação de intimidade. Por isso, há mais nuances implicadas.

A revista The Atlantic publicou recentemente uma matéria com o título “Women Are Writing the Best Crime Novels”. O autor do artigo, Terrence Rafferty, reflete sobre quais seriam as razões por trás do fenômeno. Entre as hipóteses, está a ideia de que tudo pode ser material para um bom suspense, não apenas as histórias tradicionais. Um casamento em crise, uma filha desaparecida, uma garota desempregada que se torna obcecada pelo casal que avista do trem. Quem precisa de acontecimentos grandiosos quando o dia a dia, com suas infinitas camadas, é colocado em um microscópio?

Na literatura, o termo suspense psicológico é utilizado para designar histórias do gênero onde a ação não é o principal elemento do enredo. A ação, quando existe, funciona como pano de fundo para desenvolver entrelinhas mais complexas, revelando conflitos internos das personagens.

Esse tema me interessa há tempos. O primeiro suspense psicológico que li foi o brasileiro “Valsa Negra“, de Patrícia Melo, lançado em 2003. Premiada com o Jabuti por seu livro anterior, “Inferno“, a autora é considerada “a sucessora de Rubem Fonseca” na literatura policial brasileira.

“O ódio é indistinguível do amor”, diz o verso de Catulo, epígrafe do romance. O narrador-personagem de “Valsa Negra” é um maestro obcecado pela esposa mais jovem, a violinista Marie, e compartilha conosco sua desconfiança e rancor, como Bentinho em “Dom Casmurro”.  A história sobre ciúme e obsessão nos remete a um terror familiar, bem diferente das tramas remotas sobre assassinos em série e seus rituais exóticos.

Nesse sentido, temos um clássico contemporâneo: “Garota Exemplar“, de Gillian Flynn, traz a história de uma mulher que desaparece na data em que completaria cinco anos de casamento. Um capítulo é narrado sob a perspectiva do marido (Nick); outro, da esposa (Amy). A estrutura ele-disse X ela-disse contrapõe as versões de cada um sobre os mesmos acontecimentos. Aos poucos, o leitor vai descobrindo que pode haver uma terceira (talvez uma quarta) versão, já que nenhum dos narradores é confiável.

Como em “Valsa Negra“, a epígrafe também antecipa o que virá: “O amor é a infinita mutabilidade do mundo; mentiras, ódio, até mesmo assassinato, tudo está atrelado a ele; é o inevitável desabrochar de seus opostos, uma magnífica rosa com um leve cheiro de sangue” (Tony Kushner em “The Illusion”).

Uma magnífica rosa com um leve cheiro de sangue. Que frase sombria para definir o amor.

Flynn é uma observadora perspicaz, por vezes sádica. Não poupa seus personagens nem leitores, não tem receio de ser cruel. Ao mesmo tempo, consegue ser muito espirituosa.

Tenho a impressão de que a recepção de “Garota Exemplar” foi tão entusiasmada porque a história funciona como uma parábola do casamento, de modo bastante universal. Guardadas as devidas proporções, todos podem se identificar de alguma forma. Logo na primeira página, Nick diz: “Suponho que essas indagações pairem como nuvens negras acima de todos os casamentos: No que você está pensando? Como está se sentindo? Quem é você? O que fizemos um ao outro? O que iremos fazer?”

Assim, de cara somos lançados do banal (no que você está pensando, como está se sentindo) ao trágico (o que fizemos um ao outro, o que iremos fazer). No meio, o estranhamento (quem é você), que se agrava porque é dirigido a quem antes se supôs conhecer bem. O sentimento de intimidade é atropelado pelo assombro do desconhecido. Estamos de volta ao inquietante de Freud.

Em entrevista à revista Entertainment Weekly, Flynn disse que acompanha programas de TV sobre crimes reais, especialmente mistérios de esposas desaparecidas. Quando o marido se torna o principal suspeito (estatisticamente, é o que mais ocorre no decorrer das investigações), parece difícil acreditar.

Garota Exemplar” deu algumas voltas e surpreendeu: Amy não é tão boazinha quanto nos leva a acreditar, está longe de ser a vítima habitual dos noticiários. Flynn foi acusada de misoginia por explorar um lado obscuro e controverso de suas personagens. Em resposta, argumentou que suas mulheres podem ocupar todos os papéis, que não está comprometida com heroínas simpáticas. Ser mulher não é uma experiência única, pasteurizada.

Depois do sucesso comercial de “Garota Exemplar”, os romances anteriores de Flynn também foram publicados por aqui. Gosto bastante de “Objetos Cortantes” (pense em uma história sinistra) e nem tanto de “Lugares Escuros” (seu primeiro livro), embora comece com uma frase memorável: “Tenho dentro de mim uma maldade tão real quanto um órgão”.

Neste mês, a editora Intrínseca lançou seu novo conto, “O Adulto“, um livro de apenas 59 páginas. Flynn escreveu o texto para uma coletânea de horror editada por George R. R. Martin. A história é divertida e assustadora, para ler de um fôlego só.

Uma das referências de Flynn é a escritora norte-americana Patricia Highsmith, autora de inúmeros clássicos do gênero. Seu livro “Strangers on a Train“, de 1950, inspirou o filme “Pacto Sinistro”, de Alfred Hitchcok. A autora também criou o personagem Thomas Ripley, de “O Talentoso Sr. Ripley”.

Em “O Perdão Está Suspenso“, Highsmith escreve sobre um jovem casal que foi viver no interior da Inglaterra, em uma casa afastada da cidade. Aqui, a autora traz a máxima que atravessa toda sua obra: “Qualquer pessoa pode matar. Isso se deve também às circunstâncias, e não apenas ao temperamento humano”. Ao aproximar o crime das pessoas “normais”, a autora dá um salto importante e provoca no leitor um sentimento incômodo, difícil de suportar.

Afinal, quando o mal está do lado de fora, à espreita nas florestas ou ruas escuras, em outros planetas ou dimensões sobrenaturais, é mais fácil distinguir a si mesmo como o bem. Já quando o mal aparece na figura de maridos e esposas, de mães e filhas, irmãos e irmãs, amigos e vizinhos, ficamos desolados. A constatação do desamparo se torna palpável, assim como o estranhamento diante da maldade potencial que há em nós.

“(…) já ouvi escritores dizendo que é mais difícil escrever sobre um lugar que conheceram a vida inteira do que sobre outro onde passaram apenas três semanas, pois é mais difícil pinçar detalhes significativos do lugar que se conhece há muito tempo”, diz Alicia, a esposa de “O Perdão Está Suspenso“. No entanto, quando um autor consegue, somos atingidos de maneira certeira. Ninguém está seguro.

Nesse caminho, temos também “A Garota no Trem”, da britânica Paula Hawkins. O título dialoga tanto com seu par contemporâneo, “Garota Exemplar“, como com o clássico de Highsmith, “Strangers on a Train“, e veio na esteira do sucesso comercial do primeiro. Embora existam semelhanças, são duas experiências de leitura diferentes. Flynn tem um senso de humor difícil de alcançar, subverte estereótipos como poucos.

Em “A Garota no Trem”, somos conduzidos pelas páginas através de três personagens femininas: Rachel, Megan e Anna. A primeira é a “garota” que nomeia o livro. Desempregada, infeliz e confusa, ela fantasia a vida de um casal que observa através da janela do trem. Quando a esposa desaparece, Rachel deixa o posto de observadora para se tornar uma das principais suspeitas.

Ambas as “garotas” foram levadas das páginas para o cinema: “Garota Exemplar” foi roteirizado pela própria Flynn e dirigido por David Fincher. Já “A Garota no Trem” foi adaptado por Erin Cressida Wilson e dirigo por Tate Taylor.

Também da Grã-Bretanha, a escritora Sophie Hannah, autora de “A Vítima Perfeita“, dolorosa história sobre estupro e traição, foi bem recebida pela crítica. Considerada um dos principais nomes da literatura policial contemporânea, Hannah conseguiu um feito notável: foi a primeira autora a obter autorização dos herdeiros de Agatha Christie para usar o clássico detetive Hercule Poirot como personagem em suas histórias.

Aqui, vale fazer uma pausa em homenagem àquela que é considerada “A Rainha do Crime” ou “A Dama do Suspense”. Nascida na Inglaterra em 1890, Agatha Christie publicou mais de 80 livros (alguns utilizando o pseudônimo Mary Westmacott). O Estadão publicou recentemente um artigo sobre a autora, escrito por André de Leones, que valoriza o aspecto literário do texto de Christie. Para Leones, a escritora construiu uma obra tão perene porque soube valorizar “o aspecto narrativo e, portanto, intrinsecamente literário” de seus romances.

Agatha Christie entrou para o Guiness como a romancista mais bem sucedida da história da literatura em termos de número de livros vendidos. Considerando o conjunto da obra, teriam sido cerca de quatro bilhões de exemplares ao longo dos séculos 19 e 20, perdendo apenas para a Bíblia e para a obra de Shakespeare.

Entre as autoras contemporâneas, temos alguns destaques: a finlandesa Tove Jansson (uma preciosidade), as britânicas Jane Shemilt e Evie Wyld, a canadense A. S. A. Harrison e as norte-americanas Megan Abbot e Jessica Knoll são apenas alguns nomes. Como se vê, nem só de Edgars e Arthurs é feito o bom suspense.

 

Colagem de Thiago Thomé [thiagothome.com] em homenagem às escritoras Agatha Christie, Patricia Highsmith, Gillian Flynn e Paula Hawkins.

Fabiane Secches

Fabiane Secches escreve sobre cinema, literatura e psicanálise.

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